quinta-feira, 16 de abril de 2026
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Rauls: Como o Funk Transformou Estelionatários Digitais em Ícones de Músicas e Série da Netflix

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Funk paulistano eleva estelionatários digitais, os ‘Rauls’, ao estrelato musical e inspira série da Netflix.

Um nome comum no Brasil, ‘Raul’, ganhou uma nova conotação no universo do funk paulistano, tornando-se sinônimo de estelionatário digital. MCs da região têm retratado o crescimento vertiginoso dessa modalidade de crime em suas músicas, que acumulam milhões de visualizações e agora inspiram uma série da Netflix.

A origem do apelido ‘Raul’ para os golpistas é incerta, mas a teoria mais difundida entre produtores musicais, MCs e pesquisadores de segurança pública remete ao aparelho conhecido como ‘chupa-cabra’ ou ‘Raul’, usado para clonar cartões em caixas eletrônicos. Para se distanciarem dessa associação negativa, os criminosos teriam adotado o nome de batismo de muitos brasileiros.

O estelionato, crime previsto no artigo 171 do Código Penal com pena de um a cinco anos de reclusão, tem sido um tema recorrente no funk paulistano, especialmente a partir dos anos 2010. As letras frequentemente abordam não apenas a prática dos golpes, mas também o estilo de vida luxuoso que os criminosos ostentam com o dinheiro obtido ilicitamente. Conforme informação divulgada pelo g1, a reportagem ouviu diversos artistas e produtores, que pediram anonimato por temerem represálias policiais e associação com o crime.

O Funk Como Cronista da Realidade Periférica

MCs como MC Kelvinho e MC Kapela se destacaram por focar suas músicas no universo do estelionato. Um dos grandes sucessos de Kelvinho, “O Corre”, com 22 milhões de visualizações no YouTube, descreve a vida de quem vive de golpes: “Os caras que vivem de golpe / Nocaute no Santa / É nós que é o corre / E os bicos se espanta”.

A partir dos anos 2020, com a explosão dos crimes cibernéticos, mais funkeiros passaram a abordar o tema. “A molecada mais nova quer surfar na onda. Se na época do funk ostentação se falava da marca de roupa X ou da moto Y, hoje o negócio é falar dos Rauls, não só pelo crime em si, mas a vida que eles levam por conta dos golpes”, explica um MC.

Outro sucesso temático é “300 no 7”, de MC GP, MC J Vila e MC Luuky, lançada em 2024. A canção narra o passo a passo da vida de um ‘Raul’: “Arranquei 300 no 7 / Nós que faz e acontece / Busca as duas no flat / E joga na Macan”. O produtor Yuri De Lucca Dinalli, da GR6, maior produtora de funk do país, afirma que “hoje, os 30 principais artistas de funk, em algum momento, falaram sobre Raul, nem que seja numa linha”.

‘Rauls’: Da Música para as Telas da Netflix

O sucesso do tema no funk abriu portas para o audiovisual. Em outubro de 2025, a Netflix lançará “Rauls”, uma série criada por Kaique Alves, Konrad Dantas e Felipe Braga, os mesmos de “Sintonia”. A produção promete explorar o universo dos estelionatários digitais, com forte ligação com a música, e contará com MCs no elenco.

Falar de ‘Raul’ vai além do crime em si, englobando toda a cultura associada a quem o pratica: onde e como gastam o dinheiro, as gírias utilizadas e o estilo de vestimenta. Surgiu um imaginário sobre como esses golpistas se vestem, com uma versão feminina, as ‘Raulas’. Homens optam por cores neutras, poucos acessórios e bolsa transversal de grife, enquanto as ‘Raulas’ usam macacão ou jaqueta com calça jeans e presilhas no cabelo.

O Funk e a Documentação da Criminalidade Urbana

Desde seu início, o funk em São Paulo tem servido como um cronista da realidade das periferias, documentando dinâmicas criminosas. No início dos anos 2000, o foco eram assaltos e tráfico de drogas, com o “funk proibidão”. A socióloga Isabela Vianna Pinho observa que “as letras têm toda uma relação com a realidade, citam nomes reais. Percebi que, na Baixada Santista, o funk é importante porque documenta uma história”.

Com a violência que assolou a Baixada Santista e levou ao assassinato de MCs como Careca, o proibidão perdeu força, abrindo espaço para o funk ostentação. Um MC com mais de 15 anos de carreira comenta que “o proibidão tem público até hoje, mas ninguém quer morrer cantando. No caso dos Rauls, ainda existe uma visão de que quem canta também é estelionatário, mas não tem tanta opressão”.

Cibercrime, PIX e o Novo Perfil do Criminoso

Ana Clara Klink, doutoranda em Antropologia Social pela USP, aponta que o crescimento do estelionato virtual está ligado a fatores como o surgimento do PIX, a pandemia e o anonimato. O público envolvido, segundo ela, é majoritariamente jovem, entre 18 e 29 anos, com bom conhecimento tecnológico.

Gustavo Prieto, professor de Geografia Urbana da UNIFESP, destaca que o Primeiro Comando da Capital (PCC) tenta captar os ‘Rauls’ para sua estrutura financeira. “Esses estelionatários são uma espécie de microempreendedores que trabalham, muitas vezes, com um celular e um computador, dentro da própria casa”, afirma. Essa autonomia e a forma como o dinheiro é gasto, impulsionando a economia local com festas e bens de consumo de luxo nas periferias, chama atenção e molda uma nova percepção desses criminosos.

Fonte consultada: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/noticia/2026/03/30/rauls-como-o-funk-transformou-estelionatarios-digitais-em-personagens-de-musicas-e-de-serie.ghtml.

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