quarta-feira, 28 de outubro de 2026
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Tradição de Queimar “Judas” na Bahia: Fábrica de Salvador Mantém Viva a Arte de Confeccionar Bonecos com Mais de 400 Exemplares

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Fábrica em Salvador preserva a tradição secular de confeccionar bonecos de “Judas” para a Semana Santa, celebrando a cultura popular baiana.

Em um bairro histórico de Salvador, a mais de seis décadas, uma fábrica de fogos de artifício mantém viva uma tradição singular: a confecção dos bonecos de “Judas”. Estes bonecos, que são tradicionalmente malhados ou queimados no Sábado de Aleluia, celebram a cultura popular baiana e têm raízes profundas na influência católica e portuguesa.

Neste ano, a fábrica produziu cerca de 400 exemplares, encomendados de diversas partes do estado. A iniciativa, que começou com Florentino Moreira Sales, conhecido como Florentino Fogueteiro, é hoje mantida por seus antigos ajudantes, que honram o pedido de seu criador para que a tradição não se perca.

Apesar do sucesso na produção deste ano, a manifestação popular do “Judas” vem enfrentando um declínio. Fatores como a diminuição da mobilização comunitária, a menor adesão ao catolicismo e a ascensão de novas tradições contribuem para a perda de força desta celebração. Conforme informação divulgada pelo g1, a fábrica já chegou a entregar mil bonecos em anos anteriores, um número significativamente maior que os 600 bonecos de 2026.

A História e o Significado dos Bonecos de “Judas”

A tradição de confeccionar e malhar ou queimar bonecos de “Judas” tem origem na influência do catolicismo e de Portugal. O ato simboliza a condenação do apóstolo Judas Iscariotes pela traição a Jesus Cristo, um evento central na narrativa cristã. O boneco, construído com papel, goma e madeira, é adornado com roupas diversas e, tradicionalmente, recebe fogos de artifício nos pés para a celebração.

O historiador Jaime Nascimento explica que a aversão à figura de Judas, associada à sua traição por 30 moedas de prata, se consolidou ao longo dos séculos. Antigamente, outras características negativas, como ser canhoto, também eram associadas ao apóstolo, equiparado ao demônio em algumas crenças populares.

O Testamento: Uma Crítica Social em Forma de Tradição

Além da queima ou malhação do boneco, um ritual importante é a leitura de um testamento fictício atribuído a “Judas”. Este documento, que ganha versões personalizadas a cada encomenda, serve como um veículo para críticas sociais e políticas. Nele, “Judas” expressa sua maldição e, ironicamente, doa seus bens, lembrando de todos sem esquecer de ninguém.

Este testamento, que acompanha o boneco, permite que as pessoas expressem descontentamentos com figuras públicas, políticos ou criminosos, colando seus rostos no boneco. A prática do “Judas” se torna, assim, um espaço para a manifestação de opiniões e um reflexo dos tempos.

Desafios e a Luta pela Preservação da Tradição

Apesar da dedicação dos atuais responsáveis pela fábrica, a manifestação do “Judas” enfrenta desafios significativos. O historiador Jaime Nascimento aponta para a queda da mobilização popular, com muitas pessoas preferindo viajar durante a Semana Santa em vez de participar das celebrações comunitárias. A diminuição da influência do catolicismo e a mudança nos costumes religiosos, como a menor prática do jejum na Sexta-feira Santa, também contribuem para o declínio.

A falta de financiamento político e o surgimento de novas tradições, como os jogos de futebol “baba de saia” ou “baba do vinho”, que ocorrem no mesmo período, também desviam o interesse do público. No entanto, mesmo diante desses obstáculos, a fábrica em Salvador demonstra a força da tradição e o compromisso em mantê-la viva para as futuras gerações, celebrando um aspecto importante da cultura baiana.

A produção de “Judas” em Salvador, que custa a partir de R$ 350, continua sendo um símbolo de resistência cultural. Os artesãos, como Fernando Encarnação, expressam gratidão pelo interesse renovado, mesmo com a queda geral na procura. “Graças a Deus, tem sido ótimo. A gente pensou que não seria esse ano”, celebra Encarnação, ressaltando a importância de honrar o legado de Florentino Fogueteiro.

Fonte consultada: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2026/04/04/fabrica-mantem-tradicao-e-confecciona-cerca-de-400-judas-para-serem-queimados-na-bahia.ghtml.

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Marcela Costa

Formação e credenciais Bacharelado em Comunicação Social — Jornalismo, Universidade de São Paulo (USP), 2011 Pós-graduação em Jornalismo de Dados, ESPM-SP, 2015 Certificação IFCN (International Fact-Checking Network), 2018 Membra da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji)

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