Piscicultura e Espécies Exóticas Ameaçam Ecossistema do Lago de Furnas: Riscos à Água e Fauna Revelados
O Lago de Furnas, um dos maiores reservatórios do Brasil, está sob crescente pressão ambiental. Pesquisadores identificam uma combinação de espécies invasoras, piscicultura intensiva e contaminantes emergentes como ameaças ao equilíbrio ecológico.
Uma expedição especial, realizada entre 30 de março e 10 de abril pelo g1 Sul de Minas e EPTV, buscou mapear a dimensão e a importância do lago, além de ouvir as histórias de quem vive dele. A iniciativa, chamada “Travessia das Águas”, gerou reportagens especiais e um diário de bordo detalhado.
Esses alertas vêm de especialistas como o professor Paulo Pompeu, da Universidade Federal de Lavras (Ufla). Conforme informação divulgada pelo g1, o reservatório já abriga 65 espécies de peixes, sendo 14 não nativas. Essa introdução está ligada, em grande parte, a escapes da piscicultura, que impactam diretamente a fauna local.
Desequilíbrio na Distribuição de Espécies
A análise da distribuição das espécies no Lago de Furnas revela um cenário preocupante de desequilíbrio ecológico. O professor Paulo Pompeu explica que as espécies nativas concentram-se nas regiões superiores do reservatório, próximas aos rios que o formam.
Em contrapartida, nas áreas mais próximas à barragem, observa-se um aumento significativo na abundância e no número de espécies exóticas. Essa mudança na composição da fauna aquática é um forte indicativo da alteração do ecossistema natural do lago devido à ação humana.
Impactos da Piscicultura e Contaminantes Emergentes
A piscicultura em tanques-rede é apontada como um fator que contribui para a degradação da qualidade da água. Segundo Pompeu, a prática, especialmente quando realizada em altas densidades, pode comprometer o ambiente aquático devido aos dejetos dos peixes e à ração não consumida, alterando a comunidade de peixes no entorno.
Além das mudanças visíveis, pesquisadores da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG) investigam a presença de contaminantes emergentes. Um novo laboratório será implantado para monitorar substâncias como metais pesados (chumbo, mercúrio, arsênico), medicamentos, agrotóxicos e até drogas ilícitas na água.
A professora Giovana Martins, da UNIFAL-MG, destaca que esses compostos são de difícil remoção pelos sistemas tradicionais de tratamento de água e esgoto, podendo atingir o abastecimento humano e causar sérios riscos. A professora Mariane Gonçalves dos Santos reforça que essas substâncias, muitas vezes em baixas concentrações, são persistentes e podem ter potencial mutagênico, carcinogênico e afetar sistemas endócrino e nervoso.
Riscos à Saúde Humana e Ambiental
Os contaminantes emergentes representam um risco multifacetado. No ambiente aquático, podem levar a mutações genéticas, tumores e desequilíbrios reprodutivos em organismos. A presença dessas substâncias na água de consumo humano levanta preocupações sérias sobre seus efeitos a longo prazo.
Embora os estudos sobre os impactos totais desses contaminantes em humanos ainda estejam em andamento, a professora Mariane Gonçalves dos Santos alerta para o potencial carcinogênico e mutagênico, além de possíveis problemas hormonais e neurológicos. A comunidade científica defende a ampliação das pesquisas e o engajamento da sociedade para mitigar esses riscos.
A UNIFAL-MG planeja desenvolver ações de educação ambiental e parcerias locais, enfatizando que o apoio da comunidade é fundamental para o sucesso dos projetos de monitoramento e conservação do Lago de Furnas.