sábado, 30 de maio de 2026
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PF diz que prisão de Ramagem nos EUA foi articulação para evitar demora em extradição

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Estratégia para Ramagem: PF articulou com ICE para contornar lentidão em extradição

A detenção do ex-diretor da Abin, Alexandre Ramagem, nos Estados Unidos, em 13 de maio, foi resultado de uma articulação entre a Polícia Federal (PF) e autoridades migratórias americanas. O objetivo seria agilizar o retorno de Ramagem ao Brasil para o cumprimento de sua pena, evitando a morosidade e possíveis negativas em pedidos formais de extradição.

Ramagem foi condenado a 16 anos de prisão por crimes relacionados aos atos de 8 de janeiro de 2023, incluindo organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado de Direito e golpe de Estado. A estratégia teria se aproveitado do suposto status irregular de Ramagem nos EUA para viabilizar sua prisão e envio ao Brasil.

Conforme apurado pela BBC News Brasil, a PF teria compartilhado informações sobre o paradeiro e a situação criminal de Ramagem com o ICE (Immigration and Customs Enforcement), agência de imigração americana. Essa cooperação visou contornar o risco de rejeição do pedido de extradição, que já havia sido emitido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em dezembro de 2025, mas ainda aguardava resposta dos EUA.

Temor de Repetição e o Caso dos Blogueiros

Investigadores brasileiros temiam que o pedido de extradição de Ramagem seguisse o mesmo caminho de pedidos anteriores contra os blogueiros Alan dos Santos e Oswaldo Eustáquio. No caso de Alan dos Santos, o pedido de extradição feito em 2021 nunca foi cumprido pelos americanos, sob o argumento de que os crimes investigados no Brasil não seriam considerados crimes nos Estados Unidos.

Já no caso de Eustáquio, a Justiça da Espanha negou o pedido brasileiro em 2025 com um argumento similar. A preocupação se intensifica pelo fato de que a decisão final sobre extradição nos EUA cabe ao Secretário de Estado, cargo atualmente ocupado por Marco Rubio. Rubio possui laços com integrantes da família Bolsonaro e já criticou decisões do ministro Alexandre de Moraes e o julgamento do ex-presidente.

A Fuga e a Informação Compartilhada

Segundo a fonte com conhecimento das tratativas, Ramagem e sua família teriam deixado o Brasil pela divisa com a Guiana, no estado de Roraima, rumando para os Estados Unidos. Desde então, Ramagem estaria sendo monitorado por autoridades brasileiras.

Um agente de ligação da PF na Flórida teria repassado informações sobre Ramagem ao ICE há alguns meses. A atuação da agência americana teria ocorrido somente agora, após esse período.

Versão Oficial e Contestações

Em nota oficial, a PF confirmou a prisão de um “condenado” pelos atos de 8 de janeiro em Orlando, fruto de cooperação policial internacional. A nota não menciona Ramagem nominalmente, mas detalha que o preso é considerado foragido da Justiça brasileira após condenação por organização criminosa armada, golpe de Estado e abolição violenta do Estado de Direito.

Por outro lado, o jornalista Paulo Figueiredo contestou a versão oficial, afirmando que a prisão de Ramagem teria ocorrido por uma infração de trânsito e que seu status migratório seria legal, com um pedido de asilo em andamento. Figueiredo negou qualquer participação do governo brasileiro no episódio, classificando-o como um procedimento padrão de imigração.

Próximos Passos e Incertezas

Ainda não está claro quando ou se Ramagem será enviado ao Brasil. Ele passará por uma audiência com um juiz especializado em questões migratórias. Caso o pedido de asilo seja confirmado, seus advogados poderão argumentar perseguição política no Brasil, solicitando que ele aguarde a análise do pedido nos EUA.

As autoridades americanas, incluindo o ICE e o Departamento de Segurança Interna, não responderam aos questionamentos da BBC News Brasil. O advogado de Ramagem no Brasil também não se manifestou até o momento.

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Marcela Costa

Formação e credenciais Bacharelado em Comunicação Social — Jornalismo, Universidade de São Paulo (USP), 2011 Pós-graduação em Jornalismo de Dados, ESPM-SP, 2015 Certificação IFCN (International Fact-Checking Network), 2018 Membra da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji)

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