Peru: Crise política transforma economia em ‘zumbi’ apesar de avanços
A economia peruana, por anos um farol de estabilidade macroeconômica na América Latina, enfrenta um paradoxo: enquanto as contas públicas permanecem saneadas e a moeda forte, a constante turbulência política e a sucessão de governos impedem o país de atingir seu potencial de crescimento.
Especialistas alertam que essa dicotomia, onde a política e a economia parecem andar em caminhos separados, é uma meia verdade. A instabilidade política tem, de fato, um custo alto, resultando em oportunidades perdidas e um crescimento que, embora positivo, está aquém do esperado.
O Peru, que se prepara para eleger seu novo presidente e Congresso, é frequentemente citado como um caso de sucesso em gestão macroeconômica. No entanto, a realidade é mais complexa, e a situação atual, conforme informação divulgada pelo serviço em espanhol da BBC, revela uma economia operando em “piloto automático”, uma “economia zumbi” que caminha sem rumo claro devido à imprevisibilidade política.
As bases da fortaleza peruana
A economia do Peru construiu sua resiliência sobre pilares sólidos. Um dos principais é sua abertura ao comércio internacional e a segurança jurídica oferecida aos investidores, fatores que atraíram capital estrangeiro significativo ao longo das décadas.
Diferentemente de muitos vizinhos, o país ostenta uma das moedas mais estáveis da região, o sol peruano. Essa estabilidade é, em grande parte, garantida pela autonomia do Banco Central de Reserva do Peru (BCRP), um organismo que, protegido pela Constituição, opera com base em critérios técnicos, longe das disputas políticas.
Essa independência do Banco Central é amplamente reconhecida como um dos pilares fundamentais da estabilidade macroeconômica peruana. A gestão técnica e previsível das políticas monetárias contribuiu para manter a inflação sob controle e a moeda valorizada.
O freio na expansão econômica
Nas duas primeiras décadas do século XXI, o Peru apresentou um crescimento impressionante do Produto Interno Bruto (PIB), com médias anuais próximas a 4% e picos superiores a 10% em alguns anos. No entanto, esse ritmo começou a desacelerar a partir de 2018, ano marcado pela renúncia do então presidente Pedro Pablo Kuczynski.
A saída de Kuczynski desencadeou um período de caos político, com oito presidentes se sucedendo em um curto espaço de tempo. Ignorando os anos atípicos da pandemia de covid-19, o crescimento médio do PIB peruano desde 2022 tem sido de cerca de 2,3%, um índice considerado muito abaixo do potencial do país.
“A economia peruana continua crescendo, mas existe um custo de oportunidades perdidas”, explica o economista Armando Mendoza, do Centro Peruano de Estudos Sociais. “Se tivéssemos políticas sustentadas, não estaríamos crescendo em 3%. Provavelmente, estaríamos crescendo em níveis de 5 ou 6%.”
Diego Macera, diretor do Instituto Peruano de Economia, reforça essa visão. Segundo ele, o Peru deveria ter se beneficiado mais da atual conjuntura de altos preços de commodities como ouro e cobre. “Com os preços internacionais atuais e a macroestabilidade que vivenciamos, não há motivo para não termos crescido mais de 4,5%, se nossos governos tivessem sido razoavelmente previsíveis e competentes”, declara Macera.
O preço da instabilidade para os peruanos
A incapacidade de sustentar políticas econômicas coerentes e a falta de previsibilidade política se refletem diretamente na vida dos peruanos. Apesar dos anos de crescimento econômico, o país não conseguiu reverter os níveis de pobreza e emprego formal que existiam antes da pandemia.
Em 2019, 20% da população peruana vivia em situação de pobreza. Esse índice saltou para 27,6% em 2024. Além disso, a renda real formal em 2024 ainda não retornou aos patamares de 2019, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Informática.
O ano de 2023 foi um exemplo claro do impacto da instabilidade política na economia. Após a destituição e prisão do então presidente Pedro Castillo por tentativa de golpe de Estado, o país foi palco de intensos protestos, e a economia nacional retraiu 0,55%.
“Foi um ano em que ficou muito claro que o desajuste político afetou o andamento da economia”, aponta Mendoza, evidenciando a fragilidade do elo entre a conjuntura política e o desempenho econômico.
O ‘carrossel político’ e a paralisia decisória
A constante rotatividade de presidentes e ministros no Peru tem tornado impossível a implementação de políticas de Estado consistentes e de longo prazo. A média de permanência de um presidente no cargo não chega a dois anos, e a de um ministro da Economia é ainda menor, cerca de sete a oito meses.
Essa volatilidade dificulta enormemente o planejamento e a tomada de decisões para o setor privado, especialmente para setores que exigem grandes investimentos e um horizonte de longo prazo, como a mineração, um dos motores da economia peruana.
“Como você pode fazer um planejamento se os ministros e suas equipes mudam a cada poucos meses?”, questiona Macera, ressaltando a incerteza que assola os investidores.
A situação é agravada pelo ciclo eleitoral deste ano, que inclui eleições gerais e pleitos locais e regionais. O descontentamento popular, refletido nas pesquisas, sugere uma provável mudança na maioria dos governantes, aumentando ainda mais o cenário de incerteza.
A sombra da corrupção e do crime organizado
A corrupção é apontada como um dos principais problemas do Peru, de acordo com as pesquisas de opinião. Escândalos recentes levaram à queda de quase todos os últimos presidentes, em um ciclo vicioso que fragiliza as instituições.
Mendoza lamenta que “segmentos significativos do Estado tenham sido capturados e depredados pelas máfias”, indicando uma criminalidade que vai além da corrupção tradicional e se vincula ao crime comum. As atividades delituosas, como a exportação ilegal de ouro, geram impactos econômicos significativos, estimados em cerca de US$ 11,5 bilhões no ano passado, um valor comparável ao das exportações agroindustriais peruanas em 2014.
Perspectivas futuras em um cenário global incerto
As projeções econômicas para o Peru em 2024 apontam para um crescimento de cerca de 2,9%, segundo o Banco Central peruano. Se confirmado, esse índice colocaria o país como a segunda economia com maior expansão no continente. No entanto, esse cenário é vulnerável a eventos globais, como a guerra no Oriente Médio, que já impactou os preços do petróleo e pode levar a uma recessão mundial.
O Peru continuará a se beneficiar dos altos preços das commodities, da estabilidade de sua moeda e da solidez de suas contas públicas. Espera-se que os investimentos e o emprego formal sigam em trajetória ascendente, desde que a instabilidade política interna não interfira drasticamente.
A renovação da diretoria do Banco Central peruano, prevista para este ano, é outro ponto crucial. Embora o Banco Central goze de grande independência, a escolha de seus membros dependerá do novo presidente e do Congresso. Há uma expectativa generalizada de que Julio Velarde, presidente da instituição há 20 anos e considerado uma garantia da solidez macroeconômica, possa permanecer no cargo, mas a definição ainda aguarda o desfecho do cenário eleitoral e político.