A lacuna de conhecimento dos pais sobre o uso de IA por adolescentes é alarmante, revelam estudos recentes.
A inteligência artificial (IA) já é parte integrante da rotina de muitos adolescentes, auxiliando em tarefas escolares, buscando inspiração e até oferecendo suporte emocional. No entanto, uma desconexão significativa entre o que os jovens fazem com a tecnologia e o que seus pais sabem sobre isso tem se tornado cada vez mais evidente.
Novas pesquisas divulgadas pelo Pew Research Center e pelo Common Sense Media expõem uma realidade onde a comunicação familiar sobre IA é escassa. Muitos pais admitem não ter ideia de como seus filhos utilizam essas ferramentas, desde auxílio em deveres de casa até conversas mais íntimas.
Essa falta de diálogo abre espaço para usos da IA que vão desde o trivial até o preocupante, levantando questões sobre segurança, bem-estar e o futuro da interação humana. É crucial que pais e responsáveis comecem a abordar o tema com mais abertura e curiosidade.
Descompasso entre percepções: o que os pais pensam versus o que os adolescentes fazem
Enquanto apenas 51% dos pais americanos acreditam que seus filhos utilizam IA, 64% dos adolescentes confirmam o uso de chatbots, conforme aponta o Pew Research Center. Essa discrepância é um reflexo direto da falta de conversas sobre o assunto em casa, com quatro em cada dez pais afirmando nunca terem discutido IA com seus filhos.
A professora Rachel Barr, da Universidade de Georgetown, expressa surpresa com essa realidade, ressaltando a importância de as famílias abordarem a IA em conjunto, em vez de deixar que os adolescentes naveguem sozinhos por esse universo. Muitos jovens tomam decisões sobre o uso da IA de forma autônoma, sem o acompanhamento dos pais.
O uso da IA para suporte emocional: uma área de grande preocupação
Um dos usos mais surpreendentes e preocupantes da IA por adolescentes é o de busca por apoio emocional. Segundo o Pew, 58% dos pais americanos se sentem desconfortáveis com essa prática, e outros 20% demonstram incerteza. Apesar disso, a realidade é que muitos jovens recorrem a chatbots para desabafar e buscar conselhos.
Isis Joseph, uma estudante de 17 anos, relata usar a IA para colocar situações em perspectiva ou encontrar formas de lidar com elas. Ela reconhece que a IA é um robô e que seus conselhos devem ser vistos com cautela, mas admite que a ferramenta pode oferecer um tipo de conforto. Há relatos preocupantes, como o de um adolescente de 14 anos que tirou a própria vida após conversas obsessivas com um chatbot.
Os dados mostram que 12% dos adolescentes americanos usam IA para aconselhamento ou apoio emocional, e 16% para conversas informais. Essas proporções, embora pareçam pequenas, representam milhões de jovens, com disparidades raciais notáveis: 21% dos adolescentes negros usam IA para apoio emocional, comparado a 13% dos hispânicos e 8% dos brancos.
IA na educação: entre a ajuda valiosa e o risco da cola
No âmbito educacional, o uso da IA é vasto. Adolescentes como Eloise Chu, de 13 anos, utilizam a tecnologia para praticar com problemas de matemática e se preparar para provas. O principal uso da IA entre os jovens é a busca por informações, seguida pela ajuda com tarefas escolares, com cerca de metade dos adolescentes americanos usando a ferramenta para pesquisa.
Um em cada dez adolescentes afirma fazer a maior parte do dever de casa com auxílio da IA. Muitos professores incentivam seu uso, com restrições para garantir que o aprendizado não seja comprometido. Contudo, o problema da cola é real: 59% dos adolescentes relatam que colegas usam IA para colar, e 34% afirmam que isso ocorre com frequência.
Relatos de estudantes que copiam integralmente o conteúdo gerado pela IA, sem compreensão ou retenção do material, são cada vez mais comuns. Esse cenário levanta debates sobre a integridade acadêmica e a necessidade de novas abordagens pedagógicas.
A confiança dos jovens e a necessidade de diálogo familiar
Apesar das preocupações dos adultos, a maioria dos adolescentes se sente confortável com as ferramentas de IA. Nove em cada dez jovens afirmam conseguir distinguir a interação com um sistema de IA de uma conversa humana, contra 73% dos pais. Quase seis em cada dez adolescentes se dizem confiantes em sua capacidade de usar chatbots.
A visão dos jovens sobre o futuro da IA é mais otimista do que a dos adultos. Enquanto 36% esperam um impacto positivo a longo prazo, apenas 15% preveem um impacto negativo. Os pais não precisam ter todas as respostas, mas o diálogo é essencial. Perguntar aos filhos como eles usam a IA é o primeiro passo para abrir essa conversa crucial.
Fonte consultada: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2026/04/05/por-que-pais-nao-tem-ideia-de-como-filhos-estao-usando-inteligencia-artificial.ghtml.