ONU classifica o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o crime mais grave contra a humanidade, gerando um debate global crucial sobre racismo, reparações e as desigualdades atuais.
Uma decisão histórica da Organização das Nações Unidas (ONU) colocou em evidência o legado devastador da escravidão. O tráfico transatlântico de africanos escravizados foi oficialmente classificado como o crime mais grave contra a humanidade. Essa medida, proposta por Gana e apoiada por 120 países, incluindo o Brasil, reabre discussões sobre as consequências diretas e indiretas desse período sombrio.
A votação na ONU revelou divisões significativas. Enquanto a maioria dos países votou a favor, nações com histórico colonialista, como Portugal, Espanha, França, Alemanha e Reino Unido, optaram pela abstenção. Estados Unidos, Israel e Argentina foram os únicos a votar contra a resolução, adicionando complexidade ao cenário internacional.
Para especialistas, como Luana Gènot, fundadora do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), o peso simbólico dessa decisão é imenso. Ela destaca que a classificação convida a sociedade a confrontar e deixar de relativizar a questão racial e suas consequências persistentes. A forma como a sociedade ainda lida com pessoas negras, exemplificada pela atitude de levantar o vidro do carro ao ver um menino negro em um semáforo, é uma manifestação direta desse legado.
O Legado Duradouro da Escravidão: Desigualdades Estruturais
A escravidão transatlântica, que durou cerca de 400 anos, forçou mais de 15 milhões de africanos a serem transportados em condições desumanas para as Américas e o Caribe. Milhões perderam suas vidas durante a travessia. A resolução da ONU reconhece a escala colossal desse crime e os seus impactos profundos e duradouros sobre africanos e seus descendentes em todo o mundo.
Luana Gènot enfatiza que os efeitos da escravidão continuam a moldar as **desigualdades sociais, econômicas e raciais** no Brasil e em outros países. Essa herança histórica se manifesta em diversas formas, perpetuando ciclos de pobreza e exclusão para populações de ascendência africana.
Debate sobre Hierarquia de Dores e a Necessidade de Reparação
A classificação da ONU, embora histórica, também suscitou críticas. Alguns argumentam que tal medida poderia levar a uma relativização de outras tragédias históricas, como o Holocausto. No entanto, defensores da resolução ressaltam que o objetivo não é criar uma competição entre sofrimentos, mas sim reconhecer a **dimensão global e os efeitos prolongados do tráfico transatlântico de escravizados**.
Gènot esclarece que a classificação como “crime mais grave contra a humanidade” não estabelece uma hierarquia de dores. “Não é que a escravidão e o tráfico transatlântico sejam mais graves, por exemplo, que o Holocausto. Não é. São dores que precisam ser tratadas, são problemas graves que precisam de políticas, precisam de tratamento e punições, inclusive”, afirma.
Enfrentando Injustiças Históricas para um Futuro Equitativo
A resolução aprovada pela ONU reforça a urgência em abordar as **injustiças históricas** que ainda afetam profundamente africanos e seus descendentes. A decisão amplia o debate sobre como o passado escravista continua presente nas disparidades sociais, econômicas e raciais observadas globalmente.
É fundamental que o Brasil, como país que teve a escravidão como alicerce de sua formação social e econômica, promova políticas públicas eficazes e ações concretas para mitigar os efeitos desse crime contra a humanidade e construir um futuro mais justo e equitativo para todos os seus cidadãos.
Fonte consultada: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2026/03/29/como-a-escravidao-crime-mais-grave-contra-a-humanidade-ainda-impacta-o-brasil-e-o-mundo.ghtml.