O ‘mercado’ da finitude expande, impulsionado por novas iniciativas e pela urgência geracional em debater a morte.
O que antes era um tabu, hoje ganha contornos de movimento social e até de mercado. O conceito de “boa morte”, mapeado pelo Centro de Longevidade da Universidade Stanford, reflete uma mudança cultural significativa. Nos Estados Unidos, iniciativas como “Death Cafés” e a atuação de “doulas” de fim de vida ganham espaço, enquanto no Brasil, vozes como a da médica Ana Claudia Quintana Arantes buscam abrir o diálogo.
Essa expansão do debate sobre a finitude não é um fenômeno isolado. Ela se manifesta em diversas frentes, desde eventos comunitários até a influência da indústria do entretenimento. A pandemia de Covid-19, em particular, expôs a fragilidade da vida e acelerou a necessidade de discussões mais abertas e honestas sobre o fim.
O “sigilo tirânico” sobre a morte, termo cunhado pelo antropólogo suíço Bernard Cretazz, dá lugar a um desejo crescente de desmistificar o assunto. Conforme aponta um estudo encomendado pela organização End Well, a exposição a conteúdos sobre fim de vida em programas de TV e filmes pode aumentar a disposição das pessoas em discutir o tema. As informações são baseadas em um mapeamento do Centro de Longevidade da Universidade Stanford e em iniciativas como o “Death Café” e as “doulas” de fim de vida, divulgadas em blogs especializados.
O Despertar do Interesse pela ‘Boa Morte’
O movimento da “boa morte” busca transformar a percepção da finitude, saindo de uma visão puramente médica de “problema a ser resolvido” para uma compreensão da morte como parte integrante da vida. O médico de cuidados paliativos BJ Miller, coautor de “A beginner’s guide to the end”, critica a visão iluminista que trata a morte como um fracasso da medicina, defendendo que ela seja encarada como uma fase natural da existência.
Doulas de Fim de Vida: Suporte Emocional e Informativo
As “doulas” de fim de vida oferecem um suporte similar ao das doulas de parto, concentrando-se no amparo emocional, físico e informacional para pacientes terminais e seus familiares. Elas não substituem equipes médicas, mas auxiliam no manejo do medo, da dor e na organização dos preparativos finais, promovendo a autonomia do indivíduo em seus últimos momentos. Nos EUA, o número de doulas de fim de vida saltou de 260 em 2019 para 1.600 em 2024, evidenciando a crescente demanda por esse tipo de assistência.
Eventos e Mídia: Quebrando o Tabu da Morte
Iniciativas como o “Death Café”, criado em 2004, reúnem pessoas em dezenas de países para conversar abertamente sobre o fim e o luto. No Brasil, encontros mensais ocorrem em diversas cidades. Outra proposta é o “Death over dinner”, idealizado por Michael Hebb, que propõe jantares para discutir como as pessoas gostariam de viver seus últimos momentos. Estima-se que mais de 100 mil pessoas já participaram desses eventos globalmente.
A Influência dos Jovens e da Cultura Pop
Curiosamente, os jovens lideram a iniciativa de discutir a morte. Essa geração, marcada pela desconfiança em autoridades e pela exposição precoce à instabilidade social e climática, vê na pandemia um catalisador para a reflexão sobre a finitude. A indústria do entretenimento também acompanha essa tendência, com séries como “The gentle art of swedish death cleaning” e filmes sobre o luto, que, segundo estudos, incentivam o público a debater o fim de vida.
A forma como a morte é encarada mudou drasticamente. Do final do século XIX, quando os óbitos ocorriam majoritariamente em casa, para meados do século XX, com a predominância em hospitais, houve uma crescente alienação. Agora, o pêndulo parece retornar, com um número maior de pessoas optando por morrer em seus lares, buscando maior conforto e familiaridade em seus derradeiros momentos.
Fonte consultada: https://g1.globo.com/bemestar/blog/longevidade-modo-de-usar/post/2026/04/05/por-que-o-movimento-da-boa-morte-esta-em-alta.ghtml.