quarta-feira, 28 de outubro de 2026
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Mãe de Leide das Neves, vítima do Césio-137 em Goiânia, desabafa: ‘A dor não passa, vou carregar para o resto da minha vida’

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A dor que não se apaga: Mãe de vítima do Césio-137 em Goiânia relata sequelas e a luta por um final de vida digno

Quase quatro décadas após o trágico acidente com o Césio-137 em Goiânia, a dor e as memórias da tragédia radioativa continuam vivas para Lourdes das Neves Ferreira, 74 anos, mãe de Leide das Neves Ferreira, a menina de 6 anos que se tornou um dos símbolos da catástrofe. A história, recentemente revisitada pela minissérie da Netflix “Emergência Radioativa”, traz à tona o sofrimento persistente das vítimas e seus familiares.

Lourdes das Neves Ferreira, em entrevista ao jornalista Jackson Abrão, expressou a dificuldade em superar o trauma. “Ainda dói. Eu creio que vou carregar isso para o estado da minha vida. Não passa, não”, desabafou a mãe, ressaltando que os dias alternam entre uma dor mais amena e outra mais intensa, mas a marca do acidente permanece.

A repercussão da minissérie trouxe novamente à tona a necessidade de não deixar a história do acidente radioativo cair no esquecimento. Segundo Lourdes, a adaptação audiovisual serviu como um importante lembrete dos eventos que marcaram profundamente a vida de muitas famílias em Goiânia.

Conforme divulgado pelo g1, a mãe de Leide das Neves Ferreira relatou que as vítimas da tragédia enfrentam uma série de desafios diários, que vão além do sofrimento físico. A solidão e transtornos psicológicos, como a depressão, são companheiras constantes para muitos. “Muitos ficaram alcoólatras e outros dependem de remédio controlado”, revelou Lourdes, evidenciando as graves sequelas deixadas pelo acidente.

As marcas invisíveis e a luta por auxílio governamental

Lourdes das Neves Ferreira compartilhou a dura realidade de sua situação financeira. Atualmente, sua única fonte de renda provém da pensão e do auxílio federal, totalizando R$ 954. Contudo, após a dedução de empréstimos, o valor que realmente sobra para suas despesas básicas fica entre R$ 400 e R$ 500. Essa quantia a força a tomar decisões difíceis, como escolher entre pagar as contas de casa ou comprar medicamentos essenciais.

A idosa também enfrenta problemas de saúde, incluindo dores na coluna, pressão alta, colesterol elevado e complicações oftalmológicas. Soma-se a isso a preocupação com a possibilidade de perder a casa onde vive, doada pelo governo, devido ao atraso no pagamento do IPTU por falta de recursos. “Eu só quero ter um final de vida digno”, desabafou, em um apelo por melhores condições.

Um projeto de atualização de benefícios para os atingidos pelo Césio-137

Em resposta às necessidades das vítimas, o Governo de Goiás apresentou um projeto para atualizar os valores pagos aos beneficiários que atuaram na descontaminação da área atingida, na vigilância do depósito provisório em Abadia de Goiás e no atendimento de saúde às vítimas diretas do acidente radioativo. A proposta visa reajustar os valores das pensões e auxílios.

De acordo com o projeto, os radiolesionados que tiveram contato direto com o Césio-137 ou foram expostos a uma irradiação superior a 100 RAD terão o benefício reajustado de R$ 1.908,00 para R$ 3.242,00. Para os demais beneficiários, o valor será corrigido de R$ 954,00 para R$ 1.621,00, uma medida que busca amenizar as dificuldades financeiras enfrentadas por este grupo.

O início da tragédia radioativa em Goiânia

O acidente radioativo teve início em 13 de setembro de 1987, quando duas pessoas retiraram um aparelho de radioterapia abandonado. A peça continha Césio-137, uma substância que emitia um brilho azul intenso no escuro. Sem o conhecimento do perigo, o material foi manipulado por diversas pessoas, causando sintomas imediatos como náuseas e vômitos.

A suspeita sobre a causa dos males surgiu quando uma das envolvidas levou a cápsula à Vigilância Sanitária. O acidente foi oficialmente identificado em 29 de setembro, confirmando os altos níveis de radiação e iniciando o isolamento das áreas afetadas. Embora os dados oficiais apontem quatro mortes diretas, os reflexos da tragédia são incalculáveis, com mais de mil pessoas ainda frequentando o Centro de Assistência ao Radioacidentado (Cara).

As vítimas diretas e o legado do Césio-137

Entre as vítimas fatais diretas do acidente, que faleceram devido à Síndrome Aguda da Radiação, estão Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, Maria Gabriela Ferreira, 37, Israel Batista dos Santos, 20, e Admilson Alves de Souza, 18. A tragédia gerou 6 mil toneladas de rejeitos radioativos, que permanecem armazenados em depósitos em Abadia de Goiás, um lembrete constante dos perigos da radiação e da importância da conscientização e do cuidado com materiais perigosos.

Fonte consultada: https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2026/04/07/cesio-137-mae-de-leide-das-neves-diz-que-nao-consegue-esquecer-o-acidente-vou-carregar-para-o-resto-da-minha-vida.ghtml.

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Marcela Costa

Formação e credenciais Bacharelado em Comunicação Social — Jornalismo, Universidade de São Paulo (USP), 2011 Pós-graduação em Jornalismo de Dados, ESPM-SP, 2015 Certificação IFCN (International Fact-Checking Network), 2018 Membra da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji)

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