Fevereiro de 2026: SP registra recorde de mulheres mortas pela polícia
O início de 2026 em São Paulo apresentou um dado alarmante: fevereiro registrou o maior número de mulheres mortas em ações policiais desde o início da série histórica em 2013. Foram três vítimas em um único mês, um marco trágico que acende um alerta sobre o uso da força pela Polícia Militar do estado.
Até então, nenhum outro mês havia superado a marca de duas mortes de mulheres em intervenções policiais. Os casos ocorreram em Guaiçara e Limeira, no interior, e na Zona Norte da capital paulista. A estatística, no entanto, não inclui Thawanna da Silva Salmázio, de 31 anos, morta por uma policial militar em abril deste ano, em Cidade Tiradentes, Zona Leste de São Paulo.
Conforme informação divulgada pelo portal G1, a morte de Thawanna foi marcada por supostos abusos e violência desde o início, configurando-se mais como uma “briga” entre agentes e civis do que uma abordagem policial adequada. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam o desrespeito a protocolos da Polícia Militar.
As três mortes registradas em fevereiro representam cerca de 1,6% do total de 188 pessoas mortas pelas polícias de São Paulo até 9 de abril de 2026. Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, avalia que esse aumento de mortes de mulheres em intervenções policiais não reflete uma mudança na dinâmica criminal, mas sim um “descontrole em relação ao uso da força” pela PM paulista.
Aumento da Letalidade Feminina em Ações Policiais
A especialista Samira Bueno também ressalta que não é comum que policiais mulheres causem mortes, como no caso de Thawanna, que foi baleada por uma soldado estagiária da Polícia Militar. “Agora a gente está vivendo um descontrole em relação ao uso da força por parte da Polícia Militar do estado de São Paulo. E isso vem acontecendo desde 2023. A gente teve um recorde em 2024 e 2025”, declarou Bueno.
A gestão do governador Tarcísio de Freitas tem concentrado uma parcela significativa das mortes de mulheres em ações policiais. Nos últimos quatro anos, de 2023 a 2026, foram registradas 17 mortes de mulheres, o que representa cerca de 40% do total de 43 vítimas desde o início da série histórica. Somente em 2025, seis mulheres foram mortas pela polícia, ano em que as forças de segurança do estado mataram 877 pessoas, o segundo maior número já registrado.
É importante notar que o número de mulheres mortas pode ser ainda maior, uma vez que em 58 ocorrências o gênero da vítima não foi identificado nos registros oficiais. A letalidade policial em São Paulo tem sido um tema de preocupação, com um crescimento expressivo em 2024.
Contexto de Letalidade e Protocolos Policiais
Em 2024, o número de mortos por policiais militares em São Paulo cresceu 65% em relação a 2023. Esse período foi marcado por operações policiais de grande impacto, especialmente na Baixada Santista, e representou o maior crescimento de mortes cometidas por policiais no país naquele ano. Em contraste, em 2022, ano em que o programa de câmeras corporais foi ampliado, o estado registrou o menor número de mortes cometidas por PMs em serviço da série histórica, com apenas uma mulher morta.
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) afirma que todas as ocorrências de morte decorrente de intervenção policial (MDIP) são rigorosamente investigadas. A pasta garante que as circunstâncias de cada caso são analisadas individualmente, com acompanhamento das corregedorias, do Ministério Público e do Judiciário, com base em elementos técnicos e periciais.
A SSP-SP também informa que as forças de segurança realizam ações permanentes voltadas ao aperfeiçoamento do trabalho policial e à redução da letalidade, incluindo revisão de protocolos operacionais, capacitação de agentes e uso de tecnologia. Foram ampliados os investimentos em equipamentos de menor potencial ofensivo, como espargidores, bastões retráteis e armas de incapacitação neuromuscular, com aplicação de mais de R$ 27 milhões.
Caso Thawanna: Abusos e Desrespeito a Protocolos
O caso de Thawanna da Silva Salmázio ilustra as preocupações levantadas pelos especialistas. Segundo relatos, Thawanna e seu marido, Luciano Gonçalves dos Santos, caminhavam de mãos dadas quando uma viatura da PM passou. A confusão começou após Luciano esbarrar no retrovisor do carro. O policial Weden Silva Soares deu ré e iniciou uma discussão com o casal, com xingamentos.
Em seguida, a soldado Yasmin Cursino Ferreira, que estava no banco do passageiro, desceu da viatura e também discutiu com Thawanna. A situação escalou, culminando no disparo que atingiu a vítima. Após cerca de 30 minutos, Thawanna foi socorrida ao hospital, mas não resistiu. A policial alegou ter reagido após ser atingida com um tapa no rosto.
A ação foi registrada apenas pela câmera corporal de Weden, pois Yasmin não utilizava o equipamento, uma falha que a SSP não explicou. Especialistas apontam que a Polícia Militar só pode abordar alguém em caso de fundada suspeita de envolvimento em crime, baseada em elementos objetivos. A abordagem deve seguir protocolos como identificação do agente, verbalização e uso proporcional da força, sendo o disparo de arma de fogo permitido apenas em situações de risco iminente à vida.
Análise de Especialistas e Falhas Sistêmicas
Adilson Paes de Souza, tenente-coronel da reserva da PM de São Paulo e pesquisador em segurança pública, classificou o episódio como um “absurdo” que não segue nenhum protocolo da corporação. Segundo ele, houve uma “sequência de abusos” que culminou na morte de Thawanna, que deveria ser investigada como homicídio qualificado por motivo fútil.
“É abuso desde o começo. O linguajar que [o policial] usa com a pessoa, o vídeo mostra. Quem começou agredindo foram os policiais militares. Assim que ele dá ré, já começa a discutir com o casal”, afirma. Os abusos teriam continuado mesmo após o disparo, com os agentes impedindo que Luciano se aproximasse da esposa enquanto ela agonizava.
O tenente-coronel reforça que as regras de abordagem só podem ser feitas em caso de fundada suspeita, mas que na prática essas normas não são seguidas, especialmente em regiões periféricas. “As normas da polícia não valem nada, absolutamente nada na vida real. […] Nós caímos no padrão de atuação em territórios ditos conflagrados, onde há inimigos. Periferia, pretos ou pardos e pobres. Encaixou em um desses quesitos, ou nos três, é inimigo e merece sofrer toda e qualquer ação do Estado”, desabafou.
Cláudio Aparecido da Silva, ex-ouvidor das polícias de São Paulo, também criticou a ação, chamando-a de “desinteligência” ou “briga”. Ele apontou falhas como o patrulhamento com sinalizadores desligados, a condução da viatura em velocidade inadequada e a falta de uso da câmera corporal pela soldado Yasmin, que deveria ser obrigatório para todo o efetivo. O uso de força letal, segundo ele, não se justifica, pois o disparo só é permitido em risco iminente à vida.
As gravações da câmera corporal mostram a sequência dos fatos: a viatura entra na rua, o retrovisor atinge o marido de Thawanna, o policial Weden inicia a discussão com xingamentos, a soldado Yasmin desce e discute com Thawanna, e então ocorre o disparo. A chegada de outra viatura e a tentativa de primeiros-socorros por parte de Weden até a chegada do resgate foram registradas. A dupla de policiais deixou o local em outra viatura.
O aumento das mortes de mulheres em ações policiais em São Paulo, especialmente no início de 2026, levanta sérias questões sobre o controle do uso da força e a aplicação de protocolos pelas polícias estaduais. O caso de Thawanna expõe a necessidade urgente de revisitar e garantir o cumprimento das normas de abordagem e uso da força, bem como a responsabilidade e fiscalização dos agentes.