As semanas que se seguiram aos ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã têm sido palco de uma intensa batalha pela narrativa militar americana. O Secretário de Defesa, Pete Hegseth, tem apresentado os objetivos e os resultados da guerra com um tom de exaltação, declarando uma “vitória militar com V maiúsculo”. No entanto, uma análise mais profunda revela um cenário complexo, com progresso incerto em questões cruciais e um custo humano e financeiro significativo.
A busca pela verdade sobre o andamento do conflito e seu real impacto para os Estados Unidos exige um olhar além das coletivas de imprensa. Com um cessar-fogo precário em vigor, é fundamental avaliar o que os EUA realmente alcançaram e a que preço.
Conforme informação divulgada pelo Pentágono e por declarações oficiais, o principal objetivo de guerra declarado pelo presidente americano era impedir que o Irã desenvolvesse uma arma nuclear. Contudo, o país asiático sempre negou ter tais intenções. Essa meta, aliás, já era um foco da diplomacia liderada pelos EUA há anos. A decisão de Trump de retirar os EUA do acordo nuclear de 2015, o JCPOA, e restabelecer sanções, optando pela força em detrimento da diplomacia, culminou na atual guerra.
Progresso Incerto na Questão Nuclear
Apesar das afirmações do presidente americano em junho de 2025 sobre a “obliteração” das capacidades nucleares iranianas após bombardeios em instalações como Isfahan, Fordow e Natanz, a realidade pós-guerra apresenta um quadro diferente. Mais de cinco semanas de conflito não foram suficientes para impedir que o Irã mantenha seu estoque de urânio enriquecido, próximo ao grau necessário para armas nucleares. Acredita-se que esse material esteja armazenado sob os escombros das instalações atacadas.
Rafael Grossi, diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), ressaltou que não haveria uma solução militar para as ambições nucleares do Irã. As negociações iminentes em Islamabad, Paquistão, entre EUA e Irã, serão decisivas. Há o receio de que a desconfiança gerada pelo conflito possa, paradoxalmente, intensificar a determinação iraniana em buscar a capacidade nuclear como forma de dissuasão.
Enfraquecendo o Arsenal: Objetivos em Mudança
Inicialmente, o presidente americano declarou como objetivo a mudança de regime no Irã, conclamando os iranianos a assumir o controle de seu governo. Exigiu-se também uma “rendição incondicional”. Embora figuras importantes do governo iraniano, incluindo o líder supremo aiatolá Ali Khamenei, tenham sido mortas em ataques israelenses, seu filho, Mojtaba, foi nomeado sucessor, frustrando o plano de desestabilização total.
Autoridades americanas afirmaram a destruição das capacidades militares convencionais do Irã, como mísseis, drones e fábricas de armamento. No entanto, documentos de inteligência vazados sugerem que o Irã ainda mantém cerca de metade de seu arsenal pré-guerra. A BBC não conseguiu verificar essas informações de forma independente. Essa discrepância evidencia a mudança nos objetivos declarados pelo governo Trump ao longo do conflito, com a meta de mudança de regime falhando em se concretizar.
O Alto Custo da Guerra e o Impacto Político
A guerra no Irã impôs um custo humano significativo, com 13 militares americanos mortos e centenas de feridos. Estima-se que o estoque de munição dos EUA tenha sido consumido rapidamente, com um alto número de mísseis Tomahawk utilizados. O custo financeiro diário da guerra é estimado em mais de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,1 bilhões).
Internamente, o custo político para Trump tem sido igualmente elevado. Pesquisas indicam que apenas uma minoria dos americanos apoia a guerra. A base de apoio do presidente, incluindo figuras influentes do movimento Maga, como Tucker Carlson, tem demonstrado insatisfação. Marjorie Taylor Greene, uma ex-aliada, criticou as ameaças de Trump, afirmando que “isso não está tornando a América grande novamente, isso é maldade”.
O Partido Democrata também expressou indignação, exigindo explicações sobre um suposto míssil americano que atingiu uma escola em Minab no primeiro dia de guerra, matando 168 pessoas, incluindo 110 crianças. O Pentágono alega estar investigando o incidente, mas sem conclusões até o momento. A situação levou alguns congressistas a cogitar a invocação da 25ª Emenda para retirar Trump da presidência.
O governo, por outro lado, argumenta que as ameaças de Trump forçaram o Irã a recuar e que ele tem habilidade em “promover com sucesso os interesses americanos e obter a paz”. O veredicto popular virá nas eleições de novembro, onde o impacto econômico global, como o aumento dos preços dos combustíveis devido ao fechamento do Estreito de Ormuz, pode influenciar o eleitorado.
Aliados Testados e a Fragilidade da OTAN
A resposta de Trump ao controle iraniano do Estreito de Ormuz foi marcada por contradições, oscilando entre a exigência de ajuda de aliados e a afirmação de que os EUA não precisavam dela. Ele chegou a chamar aliados de longa data de “covardes” por sua relutância em se envolver no conflito.
A já frágil união dentro da OTAN deteriorou-se ainda mais. Trump atacou a aliança por evitar o envolvimento na guerra, levando a conversas “bastante francas” com o Secretário-Geral da OTAN. Nações europeias começam a buscar alternativas, vendo os EUA sob Trump como um protetor imprevisível. Esse movimento pode representar um ganho estratégico e econômico para a China, gerando críticas a Trump em Washington.
O verdadeiro custo desta guerra ainda está sendo calculado. O futuro depende do sucesso do cessar-fogo e das delicadas negociações com o Irã. A possibilidade de novas escaladas, caso o acordo falhe, adiciona uma camada de incerteza ao cenário geopolítico.
O Legado Incerto da Ação Americana
Enquanto enfrenta a potencial crise econômica e as táticas de guerrilha do Irã, o objetivo principal da guerra parece ter se tornado a reabertura do Estreito de Ormuz. No entanto, a eficácia a longo prazo dessas ações e o alcance real dos objetivos americanos permanecem em aberto. O impacto nas relações internacionais e a percepção da confiabilidade dos EUA como aliado são consequências que já se manifestam, com potencial para redefinir o equilíbrio de poder global.