Variações genéticas podem indicar quem perde mais peso com canetas emagrecedoras
Pessoas que apresentam variações em dois genes específicos, relacionados ao apetite e à digestão, podem ter uma resposta mais significativa na perda de peso ao utilizar medicamentos injetáveis como Wegovy e Mounjaro. Essa descoberta, publicada na revista científica Nature, oferece uma nova perspectiva para entender as diferenças individuais na eficácia desses tratamentos para a obesidade.
Esses medicamentos, que ganharam popularidade em diversos países, atuam de maneira semelhante a um hormônio intestinal natural, promovendo a sensação de saciedade e, consequentemente, reduzindo o apetite. Embora a genética pareça desempenhar um papel, especialistas alertam que outros fatores, como sexo, idade e etnia, também são determinantes importantes nos resultados.
No Reino Unido, por exemplo, estima-se que cerca de 1,6 milhão de pessoas tenham utilizado medicamentos para perda de peso no último ano, com uma tendência de crescimento. A maioria desses tratamentos é obtida de forma privada, com o sistema público de saúde oferecendo acesso restrito a casos específicos. A perda de peso com esses fármacos pode variar consideravelmente, com estudos clínicos indicando médias de 14% para semaglutida (Ozempic, Wegovy) e 20% para tirzepatida (Mounjaro).
Um estudo recente, analisando dados de 15 mil usuários dessas canetas emagrecedoras, apontou uma perda de peso média de 11,7% em cerca de oito meses. No entanto, essa variação é expressiva, com alguns indivíduos atingindo até 30% de perda e outros experimentando resultados mínimos ou nulos. A pesquisa utilizou dados genéticos pré-existentes de participantes da empresa 23andMe, mapeando milhões de variações genéticas para identificar padrões associados à eficácia do tratamento.
Genes e a resposta à perda de peso
A professora Ruth Loos, da Universidade de Copenhague, comentou que o estudo identificou uma variante genética específica que não só está associada a uma maior perda de peso, mas também a uma maior incidência de náuseas. Pessoas com essa variante tendem a perder cerca de 0,76 kg a mais em média, podendo dobrar essa perda caso possuam duas cópias do gene. Essa variante é mais comum em pessoas de ascendência europeia, presente em 64% com uma cópia e 16% com duas, enquanto em afro-americanos, apenas 7% carregam uma cópia.
“Se você tem essa variante, vai perder mais peso”, afirma Loos. A pesquisa também detectou outra variante que pode estar ligada a efeitos colaterais mais intensos, como náuseas e vômitos, especialmente com o uso de tirzepatida (Mounjaro). Em casos extremos, até 1% dos usuários podem experimentar episódios de vômito intensos, quase 15 vezes mais frequentes do que o usual.
Loos ressalta que, embora o efeito genético seja modesto, ele é comparável a outros fatores conhecidos e não deve ser desconsiderado. Contudo, ela enfatiza a necessidade de reprodução desses achados em outros estudos para validação.
Fatores comportamentais e clínicos são cruciais
Marie Spreckley, da Universidade de Cambridge, reitera que a genética é apenas uma peça em um quebra-cabeça muito maior. Ela aponta que os principais motores do sucesso no tratamento da obesidade com esses medicamentos são fatores comportamentais, clínicos e relacionados ao próprio tratamento. Isso inclui a adesão a uma dieta saudável, a prática regular de exercícios físicos, o suporte e as orientações recebidas, além de condições de saúde preexistentes.
Pesquisas anteriores já indicavam que o sexo feminino tem mais do que o dobro de chances de perder 15% do peso corporal com Mounjaro, em comparação com homens. Ser mais jovem e pertencer a grupos étnicos como brancos ou asiáticos também está associado a uma maior perda de peso, embora as razões exatas ainda sejam objeto de estudo. O tipo de medicamento utilizado, a dosagem e a duração do tratamento são, evidentemente, fatores diretamente ligados a resultados mais expressivos.
Medicina de precisão e o futuro do tratamento
A combinação de informações genéticas com outros dados de saúde, no futuro, poderá guiar a escolha do tratamento mais eficaz e personalizado para cada paciente, um conceito conhecido como “medicina de precisão”. No entanto, o professor Naveed Sattar, especialista em saúde metabólica da Universidade de Glasgow, considera que esse cenário ainda está distante. “No geral, esses resultados são cientificamente interessantes, mas ainda estão longe de mudar a prática clínica”, declarou.
Sattar enfatiza a necessidade de dados mais robustos de ensaios clínicos para melhor definir o equilíbrio entre benefícios e riscos desses e de outros tratamentos emergentes. A aplicação em larga escala da genética na escolha terapêutica exigirá mais pesquisas e validações para se tornar uma ferramenta clínica rotineira. A complexidade individual na resposta a medicamentos é influenciada por uma miríade de fatores, e a genética é apenas um deles.
Acesso no Brasil
No Brasil, o cenário de acesso a esses medicamentos começa a mudar. O Rio de Janeiro foi a primeira cidade a oferecer o Ozempic pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em março de 2024. Essa medida coincide com o fim da patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e Wegovy, no país, abrindo caminho para o desenvolvimento de versões genéricas por outras empresas e, potencialmente, para a redução de custos. Atualmente, o custo mensal do tratamento é elevado, em torno de R$ 1.400, o que restringe o acesso, especialmente para a população de menor renda, mais afetada pela obesidade.
A discussão sobre a influência genética na perda de peso com canetas emagrecedoras abre portas para um entendimento mais profundo das respostas individuais aos tratamentos. Contudo, a ciência ainda busca consolidar esses achados para que possam, de fato, impactar as decisões clínicas e oferecer terapias mais personalizadas e eficazes para o combate à obesidade.
Fonte consultada: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c5yvj7lkm6yo.