sábado, 30 de maio de 2026
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Ex-zagueiro do Corinthians critica normalização do racismo após caso em clássico

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Ex-zagueiro do Corinthians critica normalização do racismo após caso em clássico

Um episódio lamentável de racismo abalou o clássico entre Corinthians e Palmeiras, quando o goleiro Carlos Miguel, do Palmeiras e ex-jogador corintiano, foi alvo de injúria racial. Um torcedor proferiu o xingamento “macaco” em sua direção durante a partida. O caso reacendeu o debate sobre a persistência do racismo no futebol brasileiro e a necessidade de combatê-lo.

Betão, ex-zagueiro do Corinthians, participou do programa Convovação CNN e se mostrou contundente ao comentar o incidente. Para o ex-atleta, a questão racial transcende rivalidades clubísticas e exige uma postura firme de todos.

“Quando a gente vai falar de racismo, acho que a gente tem que separar a questão de camisa de time. É algo que já tomou uma proporção muito grande, não somente no futebol brasileiro. É algo que a gente pode dizer que é inadmissível, independente da camisa, independente de quem fez o ato”, declarou Betão.

O peso da experiência pessoal

O ex-jogador compartilhou uma experiência pessoal que ilustra a gravidade da normalização do racismo. Ele relatou uma conversa que teve dentro de um clube onde trabalhava, ao abordar o tema do preconceito racial.

“Eu sei que tem muita gente que fala que é mimimi, que isso aí faz parte do futebol. Eu até conto uma situação que eu vivi, dentro do clube ao qual eu trabalhava, a gente estava conversando sobre essa questão do preconceito racial, e um funcionário chegou e falou assim para mim: ‘Betão, isso aí faz parte, cara, isso aí faz parte do jogo para desestabilizar o adversário'”, relembrou.

Betão questionou a fala do funcionário, enfatizando a diferença entre um jogo esportivo e a vida. “E aí eu chego e pergunto para essa pessoa: ‘você está falando de qual jogo, meu amigo? Jogo do futebol não pode ser, você está falando sobre o jogo da vida’. A reflexão do ex-jogador sublinha a urgência em desassociar o racismo de qualquer estratégia de jogo, tratando-o como um crime contra a dignidade humana.

Clubes se posicionam e torcedor prejudica próprio time

Tanto Palmeiras quanto Corinthians emitiram notas oficiais repudiando o ato. O clube alviverde se solidarizou com Carlos Miguel e pediu providências às autoridades. Já o Corinthians reiterou que o racismo é inadmissível e se comprometeu a colaborar com a identificação do responsável.

O episódio ganha contornos ainda mais graves por ter ocorrido em um jogo de torcida única. Isso indica que a ofensa partiu de um torcedor corintiano, prejudicando diretamente o próprio clube. Especialistas alertam que, além das punições esportivas, o indivíduo responsável pode enfrentar ações judiciais.

Racismo: uma ferida aberta no futebol brasileiro

O clássico em questão possuía um simbolismo adicional, com dois goleiros negros em campo, algo ainda raro no futebol brasileiro. A situação reaviva discussões históricas sobre o racismo no esporte, remetendo a casos como o de Barbosa, goleiro da seleção brasileira em 1950, e a baixa representatividade de goleiros negros em times de ponta e na seleção.

O comentarista Raul Moura destacou que o ato é incompatível com a história do Corinthians, um clube com raízes na luta por direitos sociais. “O Corinthians é um clube de luta, a camisa 2 do Corinthians é justamente um protesto, que o clube não conseguia usar jogadores negros, fez a camisa listrada. Então gente, não tem cabimento, é triste, revoltante, mas o pior ainda é saber que existem pessoas assim na sociedade ainda”, disse.

Bruno Rodrigues, outro comentarista, ressaltou a importância de se manter o debate sobre o racismo. “É um assunto que muita gente considera chato, mas vocês vão falar disso de novo, tem que falar sempre, a gente tem que bater na tecla sim. Se possível identificar, porque é um crime que se pague como tal, mas eu acho, repito, é um problema institucional de educação”, pontuou. A educação e a punição exemplar são vistas como caminhos essenciais para erradicar o racismo no futebol e na sociedade.

A normalização do racismo, muitas vezes disfarçada de “provocação” ou “brincadeira”, é um dos maiores obstáculos para a construção de um ambiente mais justo e igualitário. O caso envolvendo Carlos Miguel e as declarações de Betão reforçam a necessidade de uma conscientização contínua e de ações concretas para que o futebol seja, de fato, um espaço de todos.

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Marcela Costa

Formação e credenciais Bacharelado em Comunicação Social — Jornalismo, Universidade de São Paulo (USP), 2011 Pós-graduação em Jornalismo de Dados, ESPM-SP, 2015 Certificação IFCN (International Fact-Checking Network), 2018 Membra da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji)

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