Em meio a um cenário político húngaro dominado por Viktor Orbán há mais de uma década, uma figura emerge como a mais proeminente ameaça ao seu poder: Péter Magyar. Com 45 anos, este ex-integrante do partido governista Fidesz, que até fevereiro de 2024 fazia parte do círculo íntimo do poder, agora lidera uma campanha incansável pelo país, conclamando os húngaros a uma mudança com o slogan “Agora ou nunca”. As pesquisas de opinião indicam que ele pode, de fato, vencer.
A ascensão de Magyar representa a maior ameaça ao regime de Orbán desde sua primeira vitória eleitoral em 2010. Sua trajetória, marcada por um profundo conhecimento interno do Fidesz e uma virada espetacular, o posiciona como um adversário formidável. A campanha de Magyar, que já realizou mais de 100 eventos em todos os distritos eleitorais da Hungria, foca em combater a corrupção, melhorar a economia e recuperar fundos da União Europeia congelados devido a preocupações com o Estado de direito.
Conforme informação divulgada por veículos de imprensa internacionais, como a BBC, a campanha de Magyar tem ganhado força rapidamente. Sua mensagem, inicialmente um chamado poético à ação, foi encurtada para “Agora”, refletindo a urgência que ele sente em transformar a Hungria. Ele promete ser o “verdadeiro partido da paz”, buscando atrair eleitores descontentes com a polarização e as políticas atuais.
A virada inesperada de Magyar
A trajetória de Magyar no Fidesz era promissora. Ele ingressou no partido na universidade e se casou com Judit Varga, uma estrela em ascensão e ex-ministra da Justiça. No entanto, um escândalo envolvendo o perdão presidencial concedido a um homem ligado a abusos sexuais em um orfanato estatal, que levou à renúncia da presidente Katalin Novák e da própria Judit Varga, marcou o ponto de inflexão.
Magyar utilizou a queda de sua ex-esposa e a percepção de que “as pessoas que realmente detêm o poder se escondem atrás das saias das mulheres” como catalisador para sua saída do partido. Sua aparição no canal do YouTube pró-oposição Partizán, em fevereiro de 2024, foi um momento crucial. Um milhão de húngaros assistiram à sua explicação sobre os motivos de deixar o Fidesz, expondo o funcionamento interno do sistema e sua insatisfação gradual.
“Todos me aconselharam contra isso, amigos, familiares, conhecidos”, disse ele na entrevista. “Obviamente, estive no sistema, neste círculo, por muito tempo.” Ele percebeu que a mudança política seria árdua enquanto Orbán estivesse no poder, mas previu que, um dia, as transformações seriam rápidas.
Raízes e ascensão no Fidesz
Péter Magyar nasceu em uma família com forte ligação com o direito e a política. Filho de advogados, com uma mãe juíza de alto escalão e um ex-presidente húngaro como padrinho, ele sempre esteve imerso no ambiente político. Estudou Direito em uma universidade católica em Budapeste e ingressou no Fidesz em 2002, após a derrota eleitoral de Orbán.
Sua carreira dentro do partido incluiu passagens como diplomata na missão permanente da Hungria em Bruxelas, liderança da equipe de Orbán junto ao Parlamento Europeu e direção de empresas estatais. Contudo, seu descontentamento cresceu com o tempo. “Posso dizer a você que o Fidesz que vemos hoje é muito, muito diferente daquele no qual entrei em 2002”, afirmou Magyar.
Ele aceitou, por um período, a necessidade de certas táticas para manter o poder, mas a reviravolta decisiva ocorreu em 2024. A preocupação com o futuro de seus três filhos também o assombrava, mas a decisão de se manifestar se tornou inevitável.
O embate com Orbán e a formação do novo partido
O ponto alto de sua dissidência pública ocorreu em 15 de março de 2024, durante o feriado nacional que celebra a revolução de 1848. Enquanto Orbán discursava criticando a União Europeia, Magyar falava para cerca de 10 mil pessoas, focando em corrupção e má gestão econômica. Na ocasião, anunciou a formação de um novo partido, o Tisza, que disputaria as eleições europeias.
Magyar intensificou suas acusações de corrupção ao divulgar uma gravação secreta de uma conversa com sua ex-esposa, na qual ela detalha um julgamento importante. Judit Varga, por sua vez, acusou Magyar de abuso, o que ele nega veementemente. O governo de Orbán reagiu com desdém, com o ministro Gergely Gulyás rotulando Magyar como um “agente de Bruxelas” e um traidor.
Apesar das acusações e da retórica do governo, Magyar avançou. Assumindo o partido Tisza, ele obteve 29,6% dos votos e sete cadeiras no Parlamento Europeu, um resultado expressivo que o colocou como forte opositor. Em pesquisas de outono de 2024, seu partido já aparecia à frente do Fidesz.
O confronto direto com Orbán se intensificou. Magyar criticou os laços de Orbán com a Rússia e questionou sua lealdade ao legado histórico húngaro, acusando-o de ser o “aliado mais leal do Kremlin”. Orbán, por sua vez, rotulou o Tisza como “belicista”.
Um desafio não liberal
Magyar não se alinha com a oposição liberal tradicional, que ele critica por ter falhado em derrubar Orbán no passado. Ele considera o ex-primeiro-ministro socialista Ferenc Gyurcsány pouco diferente de Orbán e tem enfrentado a mídia pró-governo, que domina o cenário húngaro.
No início de 2024, ele alegou ter sido alvo de uma campanha de difamação “no estilo russo”, envolvendo uma suposta gravação de sexo. Magyar admitiu ter tido sexo consensual com uma ex-namorada, mas negou ter consumido drogas, afirmando ter sido vítima de uma “armadilha”. Ele realizou um teste de drogas em março, com resultados negativos, para provar sua inocência.
Apesar das investidas, nenhuma acusação contra Magyar se sustentou. Ele confia em seu conhecimento interno do Fidesz para antecipar e neutralizar as táticas de seus adversários. “Eu os conheço, conheço seus truques”, afirmou. “Sei que eles estão muito assustados.” A campanha de Magyar representa um momento decisivo para a Hungria, com o potencial de encerrar 16 anos de domínio de Viktor Orbán.