Paquistão na Linha de Frente da Paz: Missão Diplomática de Alto Risco
O Paquistão comemora um feito diplomático notável: a mediação bem-sucedida de um cessar-fogo de duas semanas entre os Estados Unidos e o Irã. Agora, o país se prepara para sediar as complexas negociações de paz, um movimento que eleva seu status no cenário internacional, mas também expõe a nação a riscos consideráveis.
A capital, Islamabad, foi preparada com feriados para receber as delegações. O vice-presidente dos EUA, JD Vance, já se reuniu com o Ministro das Relações Exteriores paquistanês, Ishaq Dar, e o poderoso Chefe do Exército, Marechal de Campo Asim Munir. Do lado iraniano, chegaram o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e o Ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi.
O mundo observa com apreensão, na esperança de um fim para os combates e a reabertura do Estreito de Ormuz, artéria vital para o fluxo de cerca de 20% do petróleo global. Contudo, os riscos para o Paquistão são multifacetados e podem levar a um “cenário de pesadelo”, segundo analistas.
O Risco de um Colapso nas Negociações
Especialistas alertam que um fracasso nas negociações pode arrastar o Paquistão para um conflito direto com o Irã. Essa possibilidade se intensifica devido ao pacto de defesa mútua assinado com a Arábia Saudita no ano passado. O Paquistão já sinalizou que honrará seus compromissos, o que poderia “aquecer três fronteiras” do país, considerando as tensões existentes com Afeganistão e Índia.
A nação do sul da Ásia já lida com duas insurgências ativas em suas províncias e a sobrecarga de um novo conflito seria insustentável. Apesar dos riscos, as redes sociais paquistanesas celebram o sucesso inicial com memes e orgulho, vendo o país como um salvador de uma “possível catástrofe”.
Um Sucesso Necessário para o Paquistão
Este feito diplomático chega em um momento crucial para o Paquistão, que enfrenta anos de instabilidade política, uma economia fragilizada e uma intensa rivalidade com a Índia. A capacidade de mediar um cessar-fogo entre potências globais demonstra uma habilidade surpreendente em um contexto desafiador.
O sucesso é atribuído à posição única do Paquistão, que goza da confiança dos Estados Unidos, do Irã e de nações do Golfo. A liderança do Chefe do Exército, Asim Munir, é apontada como central nesse processo, especialmente por sua relação com o ex-presidente dos EUA, Donald Trump.
A Conexão Trump e os Interesses Estratégicos
O Marechal de Campo Munir construiu um relacionamento estratégico com Donald Trump, oferecendo o que analistas chamam de “duas vitórias iniciais”. Uma delas foi a entrega do suposto planejador do bombardeio ao aeroporto de Cabul em 2021, um ato que agradou profundamente Trump. A segunda teria sido a atuação do Paquistão em evitar uma escalada militar com a Índia.
O Paquistão também se destacou por indicar Trump ao Prêmio Nobel da Paz. Além disso, o país prometeu acesso a seus minerais críticos, considerados de interesse de segurança nacional pelos EUA. Um contrato de investimento de US$ 500 milhões com uma empresa americana foi assinado em setembro de 2025, com a presença de Munir. Em janeiro, um acordo com uma afiliada da empresa de criptomoedas de Trump ampliou ainda mais os laços.
Uma “Postura de Princípios” na Mediação
Apesar dos laços estreitos com os EUA, o Paquistão manteve uma postura equilibrada, condenando os ataques iniciais de EUA e Israel ao Irã, mas também se posicionando firmemente contra o bombardeio iraniano às instalações de petróleo da Arábia Saudita. A abstenção em uma resolução da ONU, criticada por ser “unilateral” por não mencionar os ataques prévios, reforçou a confiança do Irã e de outros países do Golfo.
O Primeiro-Ministro Shehbaz Sharif e seu vice, Ishaq Dar, têm liderado uma intensa diplomacia, conversando com dezenas de líderes globais em Washington, Moscou, Pequim, capitais europeias, Turquia, Egito e países do Golfo. A “conversa calorosa” de Sharif com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, reafirmou a participação do Irã nas negociações e o apreço pelos esforços paquistaneses.
Desafios e o Caminho para a Paz Duradoura
As relações históricas entre Paquistão e Irã, compartilhando uma fronteira extensa e preocupações comuns como militantes e a instabilidade no Afeganistão, facilitam a mediação. A influência da religião, com a significativa população xiita no Paquistão e as peregrinações anuais ao Irã, também fortalece os laços.
No entanto, o sucesso final das negociações de paz ainda é incerto. O cessar-fogo enfrenta crescentes tensões, e ataques israelenses ao Líbano, embora não diretamente ligados ao acordo com o Irã, geram apreensão no Paquistão. A responsabilidade de conter Israel recai sobre Trump. O Paquistão “fez a sua parte” ao facilitar o processo, mas cabe às partes em conflito aproveitar a oportunidade para alcançar uma paz duradoura.