Jonas Afonso, o cria da Maré, agora garante saneamento para sua comunidade
Na Maré, o “degrauzinho do valão” é mais que um obstáculo de concreto na porta; é um símbolo da luta diária contra as enchentes e a precariedade. Essa pequena barreira, erguida para conter a água suja que transborda de rios e córregos poluídos em dias de chuva forte, atesta a resiliência e a criatividade dos moradores. Desde os anos 1960, a convivência com as águas da Baía de Guanabara e do Rio Ramos é uma constante, mas com o tempo, essa proximidade trouxe graves problemas de saúde pública.
Jonas Afonso, 28 anos, nascido e criado no Complexo da Maré, conhece intimamente essas adversidades. “Minha avó já tentou salvar a saúde de toda a família muitas vezes. Ela filtrava duas vezes a água barrosa que vinha da rede e ainda a fervia antes de fazer qualquer coisa”, relata Jonas. Ele próprio tentava replicar essas medidas entre amigos e vizinhos, mas a falta de recursos impedia que todos adotassem as práticas. O resultado era um ciclo de diarreia, febre e verminoses, doenças diretamente ligadas à ausência de saneamento básico.
A realidade de esgoto a céu aberto e água contaminada chegando às torneiras por redes improvisadas é algo que Jonas hoje trabalha ativamente para mudar. Contratado pela Águas do Rio, empresa do grupo Aegea, ele integra a equipe de mais de 160 moradores locais responsáveis pela instalação de redes de água e esgoto em todo o Complexo da Maré, formado por 16 favelas. A prioridade para a mão de obra local tem sido fundamental para o sucesso da intervenção.
“Durante o trabalho, concluí a instalação de tubulações de esgoto em um beco onde qualquer chuvinha fraca alagava tudo, e a água suja demorava dias para escoar. O pessoal que mora lá colaborou muito, alguns até saíram de casa querendo ajudar na obra”, conta Jonas. Ele descreve a sensação de implantar a primeira rede oficial de esgoto da Maré, viela por viela. “Fico feliz todas as vezes que resolvo um problema de anos e vejo um sorriso de gratidão e felicidade do pessoal da minha comunidade”, afirma, orgulhoso: “Estou vendo o meu emprego melhorar o lugar onde eu moro”.
A maior intervenção de saneamento nas favelas da Maré
A obra em que Jonas está engajado representa a maior intervenção de saneamento já realizada em um conjunto de favelas do porte da Maré, que abriga cerca de 200 mil pessoas. O projeto prevê a implantação de 18 quilômetros de redes de esgoto e a construção de um grande coletor de até 1,5 metro de diâmetro. Este coletor atravessará o subsolo das 16 comunidades, captando esgoto, interceptando valões, rios e ligações irregulares na rede pluvial.
Todo o material coletado será encaminhado para tratamento na Estação de Tratamento de Esgoto Alegria, localizada no Caju. A iniciativa visa afastar o esgoto das áreas de moradia, promovendo um ganho significativo em saúde para as famílias. “Cada imóvel terá água segura e uma conta que cabe no bolso. Até o final de 2027, o improviso vai ser coisa do passado na Maré”, explica Renan Mendonça, diretor executivo da Águas do Rio.
Com um investimento total de R$ 120 milhões, as obras inéditas de saneamento básico prometem transformar a qualidade de vida dos moradores. Nos próximos dois anos, o projeto mobilizará mais de 300 trabalhadores, com a vasta maioria sendo oriunda da própria região. Jonas é um exemplo desse contingente e não esconde o orgulho de estar contribuindo para a melhoria do local onde cresceu.
A possibilidade de trabalhar perto de casa também traz benefícios pessoais para Jonas, como a chance de chegar mais cedo para jantar com a esposa e a filha. O “degrauzinho do valão” pode ainda estar presente nas portas da Maré, mas, pela primeira vez, sua obsolescência tem uma data definida, marcando o fim de uma era de precariedade e o início de um futuro com mais saúde e dignidade para a comunidade.
Fonte consultada: https://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2026/04/7233587-da-infancia-entre-valoes-ao-trabalho-no-saneamento-a-historia-de-jonas-o-cria-da-mare.html.