Coordenador da campanha de Lula: ‘No Brasil, temos o Estado oficial e o Estado paralelo’
O ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e coordenador político da campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Wellington Dias, admitiu que o avanço do crime organizado no Brasil resultou na coexistência de um “Estado oficial” e um “Estado paralelo”. A declaração surge em um momento em que o governo busca aprovar medidas de segurança pública, tema que figura entre as principais preocupações do eleitorado.
Em entrevista à BBC News Brasil, Dias expressou a visão de que a criminalidade organizada criou uma estrutura paralela ao Estado brasileiro. Ele reconheceu que a população ainda não sentiu plenamente os efeitos das ações governamentais na área de segurança, mas avalia que a sensação de insegurança deve melhorar até as eleições.
Apesar dos esforços legislativos, como a sanção da Lei Antifacção, o governo enfrenta desafios na aprovação da PEC da Segurança Pública no Congresso Nacional. Dias pontuou que o tema é sensível e que o tempo é um fator crítico para a percepção de melhora pela população.
Avanço do crime organizado e desafios na segurança
A fala de Wellington Dias reflete uma preocupação crescente com a influência de facções criminosas. A recente aprovação da Lei Antifacção, que endurece penas para líderes de organizações como o PCC e o Comando Vermelho, é uma das respostas do governo a essa realidade.
No entanto, a tramitação da PEC da Segurança Pública demonstra a complexidade de se implementar mudanças estruturais na área. A demora na aprovação dessas medidas pode impactar a percepção pública sobre a eficácia do governo em lidar com a criminalidade.
Dias admitiu que a sensação de insegurança diminuiu pouco até o momento, mas demonstrou otimismo em relação a uma melhora até as eleições. “Eu avalio que é provável que até as eleições, a gente já vai alcançar uma sensação melhor”, afirmou.
Cenário eleitoral e pesquisas de intenção de voto
O ministro, que tem a tarefa de articulação político-partidária para um eventual quarto mandato de Lula, também comentou sobre o cenário eleitoral. Pesquisas recentes indicam uma avaliação negativa do governo Lula, com 40% considerando-o ruim ou péssimo, contra 32% de aprovação.
Além disso, as pesquisas apontam um crescimento nas intenções de voto de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário de Lula. Uma simulação de segundo turno mostra uma redução na vantagem de Lula, indicando um empate técnico.
Dias tentou minimizar os dados de institutos como o Datafolha, citando pesquisas internas do PT e do governo que indicariam níveis de aprovação superiores. Ele acredita que o cenário eleitoral em 2026 será mais favorável do que em 2022, quando Lula enfrentou Jair Bolsonaro.
Estratégias de campanha e soberania nacional
O coordenador da campanha de Lula descartou um clima de “já ganhou” e afirmou que Flávio Bolsonaro precisará ser testado nas urnas. “Nada de sapato alto, nada de já ganhou. É uma eleição, sim, polarizada”, declarou.
Dias também abordou a questão da soberania nacional, criticando a possibilidade de interferência externa nas eleições. Em referência a declarações de Flávio Bolsonaro sobre terras raras, classificou a postura como “antipatriota e entreguismo”.
“O Brasil não quer ser submetido a ninguém, nem à China, nem aos Estados Unidos. Nós queremos ser dono do nosso nariz”, enfatizou, defendendo um país independente e soberano.
Combate ao endividamento e diálogo com evangélicos
O ministro discorreu sobre as dificuldades econômicas enfrentadas pela população, como o endividamento. Ele mencionou o programa Desenrola e a intenção de reeditar medidas para aliviar a situação, em meio a críticas sobre o juro alto.
Dias reconheceu que o governo precisa melhorar sua aproximação com o eleitorado evangélico, grupo que, segundo pesquisas, demonstra preferência por candidatos de direita. Ele atribuiu parte desse distanciamento a “mentiras” como a de que Lula fecharia igrejas.
“Nós temos que vencer a mentira, como por exemplo essa do fechamento da igreja, ou de que íamos tributar as igrejas, tomar terras e instalar um regime autoritário”, disse, apontando a necessidade de dialogar com esse segmento e com a classe média, juventude e o agronegócio.
Segurança pública e a luta contra o crime
Ao ser questionado sobre a segurança pública, Dias reafirmou o compromisso do governo em entregar um país “menos violento”. Ele citou a queda nos homicídios como um indicador positivo, embora reconheça que a sensação de insegurança ainda não diminuiu significativamente.
O ministro atribuiu a demora na aprovação de medidas como a PEC da Segurança Pública à resistência do Congresso. “Tem que perguntar pro Congresso”, respondeu, ao ser indagado sobre a demora. Ele ressaltou que o governo buscou o diálogo com governadores antes de impor medidas.
Dias concluiu sua fala sobre segurança pública com uma visão desafiadora: “O Brasil, com isso, se prepara melhor. É da noite para o dia? Não posso dizer que sim. Na verdade, vamos, agora, vencer a criminalidade porque hoje ela está misturada. No Brasil, hoje, temos o Estado oficial e o Estado paralelo.”
Desafios e perspectivas futuras
O coordenador da campanha de Lula também abordou a questão da idade do presidente para uma nova candidatura e a percepção de alguns sobre a necessidade de renovação na esquerda. Ele comparou Lula a sua mãe, que aos 84 anos mantém muita energia, e destacou o vigor do presidente em viagens e no cotidiano.
Dias expressou esperança na aprovação do fim da escala 6×1, argumentando que uma jornada de trabalho menor é mais humana e alinhada com o avanço tecnológico, citando o setor bancário como exemplo de sucesso com jornada reduzida.
Por fim, sobre a possibilidade de interferência dos EUA nas eleições, Wellington Dias foi enfático: “Não vamos tolerar interferência de ninguém”. Ele defendeu a soberania brasileira e a importância de uma eleição livre e limpa, onde “vença o melhor”.
Fonte consultada: https://www.bbc.com/portuguese/articles/ce84nvk82ljo.