A vida no front da paz: o cotidiano dos capacetes-azuis brasileiros no Líbano
Mesmo em meio à escalada de conflitos no sul do Líbano, onde a Força Interina das Nações Unidas no país (Unifil) atua, os militares brasileiros buscam manter a normalidade. O capitão-tenente da Marinha Hamilton de Andrade dos Santos, um dos dez militares brasileiros na missão, descreve a rotina intensa e os desafios emocionais enfrentados.
Os capacetes-azuis estão posicionados em uma zona de alta tensão, marcada por confrontos entre Israel e a milícia xiita libanesa Hezbollah. Desde o início de março, com a intensificação da Guerra do Irã, a região tem sido palco de ataques aéreos e explosões, elevando o risco para todos os envolvidos na missão de paz.
Conforme informação divulgada pela BBC News Brasil, Santos e outro militar brasileiro tentam manter um ritual diário: almoçar juntos. “É um momento simples, mas que acaba tendo valor justamente porque permite manter contato e proximidade em uma rotina de trabalho bastante intensa”, explica o capitão-tenente.
Perdas e o peso do dever em zona de conflito
A missão da Unifil sofreu um duro golpe no final de março, quando três militares indonésios foram mortos em incidentes distintos. Um deles faleceu devido à explosão de um projétil disparado pelas Forças de Defesa de Israel, enquanto os outros dois foram vítimas de uma explosão em seu veículo, atribuída a um dispositivo improvisado pelo Hezbollah.
A Unifil, em nota oficial, lamentou as mortes e reforçou que “ninguém deveria morrer servindo à causa da paz”. Santos, embora não conhecesse pessoalmente os militares falecidos, expressou o impacto da perda em toda a missão.
“Mesmo quando não há convivência pessoal, existe um sentimento claro de respeito e pesar porque todos nós sabemos o que significa servir aqui, num ambiente complexo e de risco”, afirmou.
Para ele, esses eventos reforçam a seriedade da missão e o valor do dever. “Isso impacta o ambiente de trabalho, reforça a seriedade da missão e nos lembra, de forma muito concreta, o valor do dever e do serviço prestado.”
Estratégias para lidar com a pressão e o risco
Em um ambiente tão volátil, a disciplina mental e o foco na missão tornam-se ferramentas essenciais. Santos relata que, nas horas mais difíceis, concentra-se em suas responsabilidades e busca agir com equilíbrio.
“Num ambiente como este, isso faz toda a diferença”, pontua. O apoio mútuo entre os colegas é fundamental. “O apoio mútuo, a confiança profissional e até a capacidade de preservar alguma leveza, quando o contexto permite, ajudam a enfrentar a tensão sem perder a seriedade.”
A formação militar, o senso de dever e o equilíbrio humano são as bases que sustentam os militares diante da pressão. Santos desembarcou no Líbano em setembro de 2025, sem experiência prévia no país, e dedica a maior parte do seu tempo ao trabalho intenso, com poucas folgas.
Mudança nas operações da Unifil
A situação de “extremamente tensa e volátil” no sul do Líbano forçou a Unifil a alterar suas operações. Desde o início de março, combates ativos nas proximidades das bases têm levado a missão a focar em garantir a segurança de seus efetivos.
Em vez das patrulhas de monitoramento usuais, as tropas permanecem mais próximas de suas bases. “Em vez disso, estamos permanecendo mais próximos de nossas bases para garantir a segurança dos efetivos e assegurar que as áreas próximas às bases não sejam utilizadas por nenhuma das partes para abrigo ou para lançar ataques contra a outra”, informou o escritório de comunicação da Unifil à BBC News Brasil.
Apesar da visibilidade reduzida em campo, a Unifil continua a reportar ao Conselho de Segurança da ONU e a desempenhar um papel crucial de ligação e coordenação entre as partes, buscando evitar mal-entendidos e incentivar a desescalada.
Líbano, Brasil e a herança das missões de paz
Apesar das dificuldades, Santos descreve o Líbano como um país “muito bonito, com uma carga histórica muito forte e um povo acolhedor”. Ele ressalta a forte ligação entre o Líbano e o Brasil, tanto pela presença de descendentes de libaneses quanto pela comunidade brasileira no país.
Em setembro, Santos completará um ano de missão e retornará ao Brasil. Ele antecipa a necessidade de descanso e “arejar a cabeça” após o período intenso. O contingente brasileiro na Unifil possui experiências variadas, com alguns militares já tendo servido em missões anteriores, como no Haiti.
O Brasil tem uma longa história em missões de paz da ONU, que remonta ao Batalhão Suez, há 70 anos. Santos acredita que “uma missão de paz não termina quando um militar volta para casa. Ela permanece como parte da sua trajetória e da sua identidade”.
Fonte consultada: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c2evzykvpd0o.