sábado, 30 de maio de 2026
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Brasil prevê importar mais trigo e pagar mais caro por pães e massas em 2026

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Brasil prevê importar mais trigo e pagar mais caro por pães e massas em 2026

O consumidor brasileiro pode ter um 2026 mais caro para produtos derivados de trigo, como pães, macarrão e biscoitos. O país enfrenta um cenário desafiador com aumento nos custos de produção e uma tendência de redução na área plantada, o que pode levar a uma maior dependência de importações. Há projeções de que o Brasil se torne o maior importador mundial de trigo na próxima safra.

As mudanças no cenário geopolítico global desde o início do ano impactaram diretamente os custos da cadeia produtiva do trigo. O encarecimento do petróleo, influenciado por tensões internacionais, eleva os custos logísticos e de insumos. A alta nos preços dos fertilizantes também é um fator de grande preocupação para o setor, segundo Paloma Venturelli, presidente do Sinditrigo-PR e do Moinho Globo.

“As cotações do trigo que a gente estava acostumado no mês de março não existem mais. O cenário é outro hoje”, afirmou Venturelli. Ela destacou um aumento generalizado nos custos, incluindo embalagens, que subiram mais de 25%, e fretes, afetados pela valorização dos combustíveis e por alterações na tabela da ANTT.

Desde o início de conflitos internacionais, a indústria tem desembolsado cerca de US$ 50 a mais por tonelada de trigo importado e mais de R$ 200 por tonelada no mercado interno. Isso representa um impacto aproximado de 20%. Mesmo com a recente valorização do real frente ao dólar, que alivia parcialmente a pressão sobre as importações, o mercado ainda precisa absorver esses aumentos.

A expectativa do setor é de repasses graduais aos consumidores. Os reajustes já iniciaram há cerca de 40 dias e devem continuar ao longo do ano, com aumentos iniciais em torno de 10%, podendo chegar a, no mínimo, 20%.

Produtores avaliam redução de área plantada

Apesar da elevação dos preços do trigo, a tendência predominante é a de retração na área de plantio. Produtores em diversas regiões do Brasil estão considerando diminuir o cultivo em função do aumento dos custos e da incerteza quanto à rentabilidade futura. Luiz Pacheco, analista da TF Consultoria Agroeconômica, confirma essa tendência.

“Todos os estados do Brasil estão falando em redução de área”, declarou Pacheco. Entre os motivos citados estão o encarecimento dos insumos, o aumento do frete e as dificuldades no fornecimento de ureia, um fertilizante essencial cuja oferta é afetada por restrições e alta de preços, especialmente por sua rota de transporte.

No Paraná, o principal estado produtor de trigo do país, a área a ser plantada pode atingir o menor nível em mais de 25 anos, segundo dados do Deral. Um dos principais fatores para essa redução é a baixa remuneração observada no ciclo 2025/26. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o preço da tonelada chegou a R$ 1.000, valor considerado insuficiente para cobrir os custos de produção, levando alguns produtores a plantar trigo por necessidade de rotação de culturas e não por rentabilidade.

O produtor rural está diante de custos de produção crescentes e da incerteza sobre a manutenção da alta nos preços da commodity. Diante desse cenário de incertezas, muitos produtores podem optar por reduzir investimentos, o que pode comprometer a qualidade da produção. A menor aplicação de fertilizantes, como estratégia para conter custos, pode impactar o rendimento e a qualidade final do trigo.

Estoques baixos e demanda aquecida pressionam preços

Entidades como a Abitrigo e a Abimapi apontam para um crescimento na demanda por farinha de trigo no Brasil. Paralelamente, os estoques da safra atual já se esgotaram em estados importantes como Rio Grande do Sul e Paraná, especialmente no que diz respeito a trigo de melhor qualidade. Essa combinação de oferta reduzida e demanda crescente já impulsiona os preços.

Atualmente, os valores do trigo chegam a R$ 1.350 por tonelada no Rio Grande do Sul e R$ 1.400 no Paraná. Para a próxima safra, a estimativa é de preços entre R$ 1.350 e R$ 1.500 por tonelada. A expectativa é que o preço seja atrativo justamente pela menor oferta esperada.

No mercado internacional, projeções de menor produção nos Estados Unidos, devido à baixa umidade em regiões produtoras, e o persistente ambiente geopolítico global também contribuem para a valorização da commodity, aumentando a pressão sobre os preços.

Brasil se torna mais dependente de importações

Com a produção interna aquém da demanda, o Brasil se vê obrigado a ampliar suas importações de trigo. A expectativa é que apenas o Paraná importe cerca de 1,3 milhão de toneladas de trigo em 2026, com a Argentina como principal fornecedora. Luiz Pacheco estima que o país possa importar cerca de 8 milhões de toneladas no próximo ano, volume que, se confirmado, colocaria o Brasil como o maior importador mundial de trigo, ultrapassando o Egito.

Essa maior dependência do mercado externo ocorre em um contexto de custos logísticos elevados e demanda global crescente, o que diminui a previsibilidade do abastecimento. A diferença temporal entre as safras brasileira e argentina acentua a necessidade de importações ao longo do ano, tornando o cenário de abastecimento mais complexo.

Impacto direto no bolso do consumidor

Os efeitos do aumento dos custos na cadeia produtiva do trigo devem ser sentidos principalmente nas pontas: pelo produtor rural e pelo consumidor final. A indústria atua como intermediária, ajustando seus preços de venda de acordo com os custos de aquisição e operação. Moinhos com menor capital de giro podem enfrentar dificuldades maiores para operar em um ambiente de preços elevados, enquanto empresas mais estruturadas tendem a absorver melhor as oscilações de mercado.

“Quem vai pagar essa conta não é a indústria, é o consumidor”, resumiu Pacheco, apontando para o repasse inevitável dos aumentos. A combinação de menor produção interna, custos logísticos e de insumos em alta, somada a uma demanda crescente, sinaliza um período de preços mais altos para os produtos de trigo no mercado brasileiro nos próximos anos, impactando o orçamento das famílias.

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Marcela Costa

Formação e credenciais Bacharelado em Comunicação Social — Jornalismo, Universidade de São Paulo (USP), 2011 Pós-graduação em Jornalismo de Dados, ESPM-SP, 2015 Certificação IFCN (International Fact-Checking Network), 2018 Membra da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji)

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