sábado, 30 de maio de 2026
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Brasil de olho na Hungria: eleição pode afetar alianças de Bolsonaro e Trump?

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O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acompanha com atenção a eleição parlamentar na Hungria, que pode definir o futuro de Viktor Orbán, aliado político de Donald Trump e ex-presidente Jair Bolsonaro. A disputa eleitoral é vista em Brasília como um termômetro da força da extrema-direita na Europa e no mundo, além de um possível prenúncio de como os Estados Unidos podem se comportar em processos eleitorais estrangeiros, incluindo o Brasil em outubro deste ano.

A proximidade entre Orbán e Bolsonaro, que chegou a chamar o húngaro de “irmão”, adiciona uma camada extra de interesse para o Planalto. Uma eventual derrota de Orbán significaria um revés para um dos poucos líderes europeus que demonstraram apoio explícito ao ex-presidente brasileiro. O cenário na Hungria, com a possibilidade de derrota de um governo de longa data para uma nova força de oposição, é observado de perto por assessores de Lula.

Acompanhe os desdobramentos desta eleição que pode ter repercussões internacionais, conforme informação divulgada pela BBC News Brasil. O que está em jogo na Hungria e como isso pode influenciar o cenário político brasileiro nas próximas eleições?

Orbán: o “irmão” de Bolsonaro em teste na Europa

Viktor Orbán, que governa a Hungria desde 2010, é uma figura central na política europeia, conhecido por suas políticas conservadoras e nacionalistas. Ele construiu uma forte aliança com figuras da extrema-direita global, incluindo o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o ex-presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. A relação entre Bolsonaro e Orbán foi marcada por elogios mútuos e visitas oficiais, consolidando uma imagem de afinidade ideológica. A visita de Bolsonaro a Budapeste em 2022, onde chamou Orbán de “irmão”, reforçou essa aproximação.

A atual eleição na Hungria é interpretada pelo governo brasileiro como um “teste triplo”. Primeiro, para avaliar a resiliência da extrema-direita europeia após 16 anos de governo de Orbán. Segundo, para medir a capacidade de articulação global dessa corrente política, da qual Orbán e Bolsonaro seriam parte. Terceiro, para entender a disposição e a capacidade de influência do governo americano, sob a liderança de Trump, em eleições em outros países.

Um auxiliar de Lula, em caráter reservado, declarou à BBC News Brasil que o cenário húngaro pode oferecer pistas sobre a atuação dos EUA nas eleições brasileiras de outubro. A possibilidade de interferência externa, especialmente considerando a retórica de Trump e o apoio a aliados como Orbán, é uma preocupação para o governo brasileiro.

Trump envia vice para apoiar Orbán em meio a pesquisas desfavoráveis

Em um claro sinal de apoio, Donald Trump enviou seu vice, JD Vance, à capital húngara, Budapeste, para participar de um comício em favor de Orbán. Trump, em ligação telefônica durante o evento, declarou seu amor pela Hungria e por Orbán, afirmando ser um “grande fã” e que estaria “com ele até o fim”. Para um auxiliar de Lula, essa movimentação não foi meramente protocolar, mas demonstra a preocupação de Trump com o resultado da eleição de um aliado importante na Europa.

As pesquisas de opinião pública na Hungria indicam um cenário desafiador para Orbán. O partido de oposição Tisza, liderado por Peter Magyar, aparece significativamente à frente do partido Fidesz de Orbán, com projeções de 58% contra 35%. Uma eventual derrota do atual primeiro-ministro seria um golpe para a extrema-direita europeia e para suas conexões internacionais.

Orbán é conhecido por políticas restritivas à imigração, reformas no judiciário e críticas à União Europeia. Organizações como a Human Rights Watch acusam seu governo de atacar instituições democráticas, a imprensa e restringir direitos. O governo húngaro, por outro lado, defende Orbán como um “guerreiro da liberdade” que protege a soberania nacional.

Proximidade com Bolsonaro e episódios controversos

Uma derrota de Orbán seria vista no Brasil como um revés para um antigo aliado de Jair Bolsonaro, que atualmente cumpre pena de 27 anos de prisão por crimes como tentativa de golpe de Estado. Mesmo recluso, Bolsonaro permanece como uma figura influente na direita brasileira.

A relação entre os dois líderes se intensificou em 2022, com a visita de Bolsonaro à Hungria. A troca de elogios e a declaração de “irmandade” marcaram o encontro. Mais recentemente, em março de 2024, Bolsonaro passou duas noites na Embaixada da Hungria em Brasília, um episódio revelado pelo The New York Times e que foi citado pelo ministro do STF, Alexandre de Moraes, como indício de possível fuga ou pedido de asilo.

A defesa de Bolsonaro negou qualquer intenção de fuga, mas o episódio gerou controvérsia. A proximidade entre os líderes continuou, com Orbán defendendo Bolsonaro publicamente em julho de 2025, criticando “ordens de mordaça” e “julgamentos motivados politicamente” contra o ex-presidente brasileiro.

Interferência externa nas eleições brasileiras: um risco real?

O governo brasileiro não descarta totalmente a possibilidade de interferência externa nas eleições presidenciais deste ano, vinda dos Estados Unidos ou de alguma ala do governo americano. Um auxiliar de Lula mencionou que, no ano passado, o governo americano teria tentado influenciar o processo judicial de Bolsonaro através de tarifas. A avaliação é que a aproximação recente entre Lula e Trump tem ajudado a conter alas mais próximas à família Bolsonaro nos EUA.

A declaração do senador Flávio Bolsonaro, pedindo “pressão” internacional sobre as eleições no Brasil durante um evento nos EUA no final de março, é vista como um exemplo dessa busca por influência. Ele criticou a administração Biden por supostamente interferir para “instalar um socialista” e pediu pressão diplomática por eleições “livres e justas”.

No entanto, a fonte governamental acredita que, se as relações entre Lula e Trump permanecerem cordiais, a chance de uma interferência com o aval da Casa Branca diminui. A história recente mostra que interferências americanas em eleições latino-americanas durante a gestão Trump não seriam novidade, como o aval a um empréstimo à Argentina antes de eleições e o apoio ao candidato Nasry Asfura em Honduras, com ameaça de suspender ajuda financeira.

O ministro Wellington Dias, coordenador político da campanha de Lula, afirmou que o Brasil não tolerará interferência externa em suas eleições, ressaltando a soberania nacional e a exigência de respeito por parte de outros países.

A eleição na Hungria, portanto, transcende as fronteiras do país europeu, servindo como um estudo de caso sobre alianças políticas, a força da extrema-direita global e as potenciais influências externas nos processos democráticos, incluindo o brasileiro.

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Marcela Costa

Formação e credenciais Bacharelado em Comunicação Social — Jornalismo, Universidade de São Paulo (USP), 2011 Pós-graduação em Jornalismo de Dados, ESPM-SP, 2015 Certificação IFCN (International Fact-Checking Network), 2018 Membra da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji)

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