Dispositivos com inteligência artificial (IA) prometem facilitar a rotina, mas levantam alertas sobre privacidade, vigilância e excesso de conexão. Eles enxergam o que você vê, escutam o que você fala e ainda dão palpites sobre suas decisões. A inteligência artificial saiu das telas do celular e do computador para ocupar um espaço ainda mais íntimo.
Durante meses, uma repórter usou óculos e um colar equipados com câmeras, microfones e IA que gravam a rotina inteira. A experiência mostra como o futuro da vida conectada pode ser tão prático quanto invasivo. A promessa é tentadora: terceirizar a memória, registrar tudo o que acontece ao longo do dia para depois receber transcrições completas, resumos automáticos e até sugestões de comportamento.
“Durante meses eu usei um para registrar tudo”, relata a correspondente internacional Carolina Simente. O dispositivo, pendurado no pescoço, se conecta ao celular, grava conversas, analisa o conteúdo e devolve interpretações sobre o que foi dito e ouvido. Para completar a experiência, Carolina também testou óculos inteligentes com câmera, fone de ouvido e inteligência artificial integrada. Alguns modelos mais caros contam até com telas embutidas nas lentes e comandos por voz, que ninguém ao redor consegue ouvir, conforme divulgado pelo g1.
IA como memória e conselheira pessoal
A inteligência artificial depende de dados para funcionar. Nesse experimento, os dados eram a própria vida da repórter. Em uma simples corrida de táxi, o gravador captou a conversa com o motorista, que autorizou a gravação. Ele nasceu no Haiti e falava na língua crioulo. O gravador realizou a transcrição da conversa: “O motorista disse que não estava nem bem nem mal porque tem um monte de neve na rua”, escreveu a tecnologia.
Em outro momento, durante um voo noturno com a filha de sete anos, o aparelho testemunhou uma situação de estresse: a criança se recusava a dormir. Ao fim da viagem, a IA sugeriu, por escrito, que a mãe levasse um pijama da filha em próximas viagens e mantivesse, dentro do avião, a mesma rotina de sono de casa.
Falhas e limitações da tecnologia
Nem sempre, porém, a superinteligência entrega o que promete. Ao confiar na IA para criar uma lista de compras apenas falando em voz alta, Carolina teve um problema inesperado: o supermercado ficava no subsolo, sem sinal de internet. Resultado: voltou para casa sem metade dos produtos.
Os óculos inteligentes, por sua vez, funcionam como um guia pessoal. Em Nova York, foram capazes de identificar pontos turísticos, ainda que com pequenas falhas. Ao reconhecer o Washington Square Arch, a resposta veio correta, mas com pronúncia confusa: “Washington” em inglês e “square” entendido como palavra em português. Os óculos também são muito úteis para gravar e tirar fotos quando suas mãos estão ocupadas.
IA para autonomia e os riscos da vigilância
Para algumas pessoas, esses dispositivos representam mais do que conveniência: são uma ponte para a autonomia. É o caso da atleta francesa Emmeline Lacroute, vice-campeã mundial de escalada esportiva. Cega, ela conta com a ajuda dos óculos inteligentes usados por seu guia. As imagens são transmitidas em tempo real para o treinador, que orienta a escalada à distância. “A tecnologia me permite escalar melhor e viver uma vida melhor”, afirma Emmeline.
Apesar das vantagens, a revolução da IA vestível divide opiniões. Uma pesquisa da rede CNBC mostrou que apenas 31% dos americanos se sentem confortáveis com o avanço da inteligência artificial. No Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral já proibiu o uso de óculos inteligentes dentro das cabines de votação.
E o alerta vai além. Segundo reportagem do The New York Times, empresas do setor planejam adicionar reconhecimento facial aos óculos, tecnologia que já estaria sendo utilizada por agentes do serviço de imigração dos Estados Unidos para gravar e fotografar pessoas nas ruas. Casos de abuso também vieram à tona. Mulheres relataram terem sido gravadas sem consentimento e expostas na internet.
O impacto na atenção e a busca por desconexão
Enquanto a tecnologia promete ganho de produtividade, cresce o debate sobre o impacto na atenção e na vida emocional. Notificações constantes interrompem tarefas simples e complexas, dificultando o foco. O filósofo Byung-Chul Han define esse fenômeno como parte da “sociedade do cansaço”, em que até o lazer precisa gerar desempenho.
Para especialistas em tecnologia e comportamento, é preciso aprender a interromper aquilo que nos interrompe. O excesso de estímulos prejudica relações, o prazer e até a capacidade de simplesmente estar presente. Como reação, surgem no mercado celulares “antismartphones”, projetados para fazer menos. Sem internet, redes sociais, e-mails ou notícias, eles conquistam usuários que buscam reduzir distrações. O sucesso mostra que nem todo avanço tecnológico precisa significar mais conexão.
Fonte consultada: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/03/31/ajudante-ou-espiao-reporter-passa-meses-com-aparelhos-de-ia-que-gravam-24h-e-ate-opinam-na-vida-dela.ghtml.